Meus livros

BannerFans.com

domingo, 10 de fevereiro de 2019

No ninho do urubu


Toda tragédia, quando acontece de surpresa,
é como uma máscara que cai e expõe o horror da realidade.
Quando anunciada revela o valor predominante da humanidade.
Eis o triste compêndio:
Na madrugada da sexta-feira oito _ não era treze _ houve um incêndio.


Um container de sonhos
Num campo enorme, verde, imponente
Aonde dia e noite a ave alçava voo, na cabeça
Nas mãos e pernas de atletas inocentes.


Um container de sonhos virou cinza.
Atletas de ouro, crianças ainda,
Na flor da idade, carbonizados.


Quanto vale pra outrem a conquista da felicidade?


Ainda dizem: “acidente, acaso”
O descaso dos homicídios
Que interromperam a mocidade.


Acaso crianças são minérios do vale
Lavados, lavrados, extraídos da terra,
Como o pó da pedra, amontoados num trem
Pronto para serem vendidos?


Lamentam, decerto. Decerto que sim,
O quê? Como? Por quê?
Pelo contrato recusado;
Pela moeda não convertida;
Será
Qual perda realmente lamentam?
A promessa, a vida
Ou as condições da tragédia ocorrida?


No ninho do urubu tinha luta, hoje tem luto.
Amanhã, talvez tenha melhorias
E outros colherão o fruto.

Minas sangra


Minas sangra
A terra padece
Muito ainda tem que padecer.

A consciência é fruto delicado.
Miolo de rosa, às vezes
Morre antes de nascer.

O homem... o que é o homem?
O homem é arbusto tinhoso,
Demora florescer.

Tornara-se acre, Minas.
O cheiro, entanto, não é do ananás.
Das entranhas da terra sai lama, borra
Veneno de satanás.

Escorre da serra venosa das minas
Vida e a morte
Expurgadas com a seiva vital.
Minas, hoje, é lama infecciosa
Aonde fora fértil lamaçal.

Lama de minério, lama viscosa
Lama tóxica
É doença que vasa no quintal.

Minas, preciosa e rica,
Contaminada,
É nada.

Das entranhas expele o pus _ sabe como é?
Doença hemorrágica da ambição.
Nada sobrevive a este mal
A menos que aja de coração.

Quanto vale a vida? pergunta o poeta.
E do ventre ressequido vem o lamento, um gemido, um grito;
E no vale umedecido de lágrimas
Não, Minas, hoje, não cabe no coração.