Meus livros

BannerFans.com

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Bromélias de Minas


Acabou-se o leito do rio
_ nosso pequeno riacho _
E lá se foram todas as bromélias
Arrastadas rio abaixo.

E o ninho de Guaxo?! Tinha filhotes.
Quem viu, viu; não os vereis jamais.

Foram levados pela enxurrada de lama
Do estrato ferroso das minas de Minas Gerais
Ai, acabou-se o leito; acabou-se o rio
Acabaram-se os quintais.

E os nossos sobreviventes
_ sim, hão de sobreviver à dor!_
Ao tocar adiante a vida, contarão histórias,
Porque uma tragédia nunca é esquecida.
Enfim, contarão histórias verídicas
Dos entes seus e de outras famílias.

E alguém há de se lembrar das bromélias
Dos beija-flores, do guaxe, dos destroços…

Será que alguém viu naquele carvalho,
Aquele dia,
Naquela manhã
As novas orquídeas?…

domingo, 27 de janeiro de 2019

Prazer e solidão


Na noite monótona de silêncio
Em que parece imóvel o tempo
E se ouve apenas a respiração
E o pensamento
É difícil conter a angústia,
Tão grande é o sofrimento de quem ama.

O coração se inflama, não cabe no peito
E não há remédio que dê jeito
De conter o desejo, a dor, e a solidão.

Cria-se e recria o ambiente perfeito
Como preparasse o leito
Sabendo tão breve o prazer
Como breve é a vida e sua ilusão.

Depois vem o vazio
Como embrulho sem conteúdo
O prazer do nada, absurdo
A queimar-se de frio

E a chama gelada murcha o coração
O alívio é adormecer
Mas logo vem amanhecer
E renova-se a aflição.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

A maldição do minério


Minas tornou-se um mar de lama,
Castigada pela maldição do minério.
Vale tudo nos vales de Minas, porém
Nada vivo tem valor sobre a terra.

Incêndios, tratores rasgando as serras
Causam angústia, dor, aflição de cemitério.
Aonde antes havia curió, suçuarana, quenquém
Nada canta, só tem feridas _ mazelas do império.

Ouro Preto, Itabira, Congonhas, Santana,
De belas artes barroca e contemporânea,
Guardam bons causos de poetas, nativos e doutras bandas.

Mas o retrato de Minas são os rios, serras, belas cachoeiras
_ belas estâncias _;
Entanto, de ali: Ipatinga, Brumadinho, Mariana, hoje
O cenário é de grande tragédia, pesadelo;

Aonde, antes, era humanidade, esperança, novenas _ muita reza e riqueza _,
Instalou-se a corrupção, a bolsa, a ganância, a frieza mundana
E Minas sufocada está num imenso mar de lama.

domingo, 20 de janeiro de 2019

Uma característica do amor


Que força poderosa tem o amor!
De aparência frágil, inocente,
nasce determinado, rompe barreiras
bem cuidado, impulsiona a vida pra frente;

Qual planta viçosa abre fendas no asfalto
vence as pedras mirando alto, o céu
Inda floresce,
E cativa a alma da gente.

Gosto de pensar o amor assim, bem cuidado
Como fosse um jardim, meu e seu
E de quem passa, vê, ou mora ao lado.

Contudo, deveras frágil é o amor
Como flor que exige cuidado constante
Embora, sobremaneira forte, é frágil, inocente.

sábado, 5 de janeiro de 2019

Aos donos da pátria

Pátria amada
desarmada
desalmada
Da esperança tua fizeram mito.

Teus filhos legítimos, agora
novamente vencidos
sem norte vagueiam. Por hora
sonâmbulos bambeiam, incrédulos
N'algum ponto do abismo.

Pátria amada
Desamada
Nenhum guerreiro lhe resta:
semideuses e deuses e tribos;
Inda assim teimo, me armo
_ de sinistra à destra _, arrisco.
Prisioneiro fico.

Do norte, do centro-oeste, sopra vento duro,
mas quem ousará apagar a cicatriz, o sonho, a vontade;
a digital que se cravou nos muros?

O que fazer do amor


O que fazer do amor quando,
não correspondido, incomoda;
incompreendido,
julgam-no errôneo, insano.
é nada;
apesar de belo, assusta;
temido é, sem o ser nocivo,
entretanto, teme que cause danos.
E ele salta,
vira e revira, desavessa alma,
contorce, dança, palmeia
como pulga bailarina, minhoca,
no palco-abismo rasteja
à própria sorte?

Tão imenso, visto à sombra
Tão nobre, de decoro, uma muralha invisível
que, à meia-luz, tanto agrada quanto assombra
almas pequeninas
tal fantasma deixando a cruz!

Ribombo
no peito o gongo cala.
Infinitamente morre.
Eternamente vaga
lume
espirando luz.

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

Pores do sol


Sinto-me mais enfraquecido a cada pôr do sol.
Quisera eu o sincronismo do pensar, sentir, e viver.
Mas não sou tão forte quanto imaginava ser.

Embora certas manhãs eu acorde bem-disposto
A minha alma enfraquece ao longo do dia, morre
Morre um pouco a cada sol-posto.

Morre um pouco.
Minh’alma,
Morre ao entardecer.
De que outra forma seria
Acaso, sem poente, o sol voltaria nascer?

Morre. Morro.
Morre a alma,
Morro o corpo.
Sou um e outro; tudo
Um pouco.

Não sei bem quem ou que eu sou
Sou o que sinto
Muito sinto do que vejo
Ali estou.

Vejo muita coisa invisível
Todavia tangível estou
Quando, tanto quanto visível
Porque vejo e sinto.

Por isso sofro
E muitos eu sofre em mim
Porquanto, hei-me pouco inteiro

No fim tudo é começo
_ isso porque sou otimista.
Sem destruir sonhos, contudo
Morre homem, sonhador, alquimista.,,

Pores de sol e novo amanhecer,
Acaso, sem poente, o sol voltaria nascer?