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domingo, 28 de julho de 2019

Inquietude


O que sou? Não há nenhuma alma que compreenda seu ônus? _ pergunta-se um indigno jesus.

E um anjo invisível responde:
Mas os ombros reconhecem a cruz que a ele pertence
E reclama para si a glória da santificação.

Pelas atitudes Deus santifica as coisas e aos homens.
Faça bom uso das coisas. Usai-as somente para o bem.
Assim, pelos seus atos o homem a si consagra a Deus, e Deus o santifica por completo.

Você tem ignorado a sua missão; aquela pela qual veio ao mundo.
É hora de sair das sombras.

Lembre-se, a sombra é um espaço entre a luz e as trevas.
Escolha a direção.

Todos os dias, do céu descem anjos em raios de luz.
Dos primeiros raios de sol até o crepúsculo, o sol das almas, anjos vem e vão aos céus. Estes transportam milagres.

À noite, descem como estrelas; transportam sonhos. Vem e vão.
Às vezes param em assembleia, na lua, discutem cada missão.

Ergue-se e baixa o sol e esperamos anjos agitar as águas.
Esperamos milagres.

Na solidão das nossas esperanças vimos a luz.
Seja debaixo do céu nublado e tempestuoso ou incrivelmente estrelado esperamos milagres.
E nos olhos agitam-se as águas de Siloé.

Busco o sagrado em tudo e nada vejo.
O que houve com o mundo? O que se deu com os homens?
O sagrado anda escasso ou talvez meus olhos estejam gastos…

O sagrado é o que dá sentido a vida.
Anjos, soprem hinos nos meus ouvidos!

Explica-me o anjo:
Dai e recebei.
Ser feliz é o melhor modo de servir a Deus.
Dedique, pois, a praticar o teu dom e serás feliz.

Aprenda com a natureza.
A árvore floresce e dá fruto
E por apenas cumprir seu dom fornece a sombra, abriga os pássaros, purifica o ar…
E humildemente se renova para novamente melhor servir.

Veja os pássaros, acaso se preocupam ou se queixam da métrica em seus cantos?
Por menos harmoniosos soem, nenhum ouvido são se cansa por ouvi-los.
São perfeitos.

A gota de orvalho é tão somente água; supre a necessidade da terra, mata a sede das almas pequeninas e purifica o homem.
Ela faz seu curso, logo é rio e oceano.

Aonde há pureza não há engano.

Alegre-se por ser semelhante, não queira ser Deus.
Deus é único, Ele é o todo, perfeito e soberano; somos suas partes.
Honrai-O praticando o teu dom, para o que foste criado.

Portanto, faça tudo com amor. Principalmente, faça o que ama.
Seja o que realmente é e para o que veio.
E expressa-te à vida como num espontâneo e simples gorjeio.

domingo, 21 de julho de 2019

Fingidor

Nosso amor, tão breve como um arco-íris, passou… Passou?
Passou o tempo, o amor ficou.
Não faria nenhum sentido a luz acesa quando o sol fez deste templo seu infinito: nascente e poente e brilho oculto.
Aqui, não existe mais escuridão.

Muito tenho fingido, sempre.
Vivo fingindo.
Finjo alegria, porque muitos são que não suportam tristeza
_ Angústia e tristeza são para os fortes.

Finjo tristeza também, porque muitos se alegram ao me ver triste.
Vivo para agradar aos semelhantes.
Não mais escondo minhas dores e aflições. Porém, isso não finjo.

Vivo para agradar aos semelhantes…
E meus semelhantes vivem me cobrando o que lhes falta.
Eles são muitos e, aliás, tem gosto muito peculiar.

Quanto a mim, alcancei o estado maior: o da indiferença.
Estou sempre bem, como um arbusto entregue às estacões.
Faça sol ou chuva, nevoeiro ou tempestade, calor ou frio, eu vivo e respiro o ar que das naturezas provém. E este me é aprazível, sempre.
Mas, para agradar ao homem, eu finjo.
O homem precisa da ilusão de felicidade, pois, somente a sensação de prazer alivia as angustias do caos.


Demoliram o templo
Demoliram a arte
Demoliram o homem
Sufocaram criatura
Apagaram o infinito.
Sem o juízo, à luz do conhecimento, quem poderá reconstruir o mundo?
Somente a chama da vida é capaz de resgatar o espírito.
Viver, pois, é mais importante do que a vida.
Levante a tua cabeça. Erga-te e siga.
De pé nossos olhos enxergam mais longe, amplia-se o horizonte, abre-se o infinito; Assim, portanto, estamos mais próximo Deus.

Eu sou intimo de Deus.
Eu sou obra da consciência Divina.
Eu sou espírito. Eu sou vida.
Eu sou luz Eu sou eterno.

Assim, pois, para eu sou não existe idade, porque não existe tempo.
Eu existo no amor. Se este migra, para aonde vai lá estou Eu sou.
Este corpo, com aparência de velho, sendo já, de muitas maneiras, abandonado, nada tem de mim, exceto um pouco de apego _ fraqueza humana.
Eu existo conforme a vontade de Deus.

domingo, 7 de julho de 2019

O fenômeno ser


Aconteceu-me este fato intrigante:
Eu mal fechara os olhos e lá estava eu, uma gota d'água.
Total silêncio.
Uma gota d'água que se forma continuamente no limbo de uma folha curvada sobre um fio d'água corrente. Esta desliza para a extremidade e se desprende e pinga num lago transparente, cristalino.
Eu podia ouvir o barulho da gota intumescer, se desprender e ir caindo até colidir no espelho d'água. E o som dos seus respingos nas pequenas ondas do lago eram quase inaudíveis. Era como um suspiro que cismo haver entre notas nas sinfonias de Beethoven.
E aquilo era eu: a gota, a vida. É como pensava eu mesmo sobre mim, sentado na pedra me observando.

Deitado, meditando e tentando dormir, senti receio de mover corpo físico e mente e quebrar aquele ritmo. Sou eu, é a vida, pensei. Senti a veia aorta dolorida, latente a jugular. Percebia gota a gota meu sangue fluindo. Em gotas?!

O que sou? Nasci. Deram-me um nome. Tive pressa de falar, andar, correr... E como corri! Acelerei o tempo.

Eis a luz do mundo. Logo queremos ser crescidos, adolescentes, jovens. Logo desejamos acrescentar umas letras a mais antes do nome. Depois, depois. Palavras, títulos, mais nomes.
Aceleramos o tempo e nele se cria vácuos, intervalos quase imperceptíveis no percurso da vida. Às vezes, de vez em quando, por sorte, somos sacudidos por uma colisão, um abalo sísmico.
Aí queremos desacelerar. Mas os pés se fizeram-se de chumbo. Estão pesados demais, presos aos minérios do chão. E você vê que correr não fora boa opção. Mais vale desprender-se e voar. Mas como?

E quer ser novamente um pouquinho mais jovem _ sonhar de regresso. Quer a juventude, a adolescência, a infância, quer correr sem sair do lugar, quer colo, quer abrigo, quer silêncio... Gota d'água.

Aí a gente conclue que quer apenas ser o que fora antes de ter nome. Ser o simples ser perfeito, tão imensamente pequeno universo divino, compacto, simples fruto do amor, chamado simplesmente milagre: presente de Deus.

Entanto, por sorte, é hora de dormir.

sábado, 25 de maio de 2019

Primeiras notas

Sexta-feira.
O solo é Bach: Selon.
Lá fora orquestra-se nas folhas de bananeira.
Notas suaves.
Café, penso.

E lá vem ela, de dentro de mim.
Ascende.

Meteoro, não mais estrela cadente.
Já sem cor. Ela não é ruiva, loira ou morena.
Tornou-se transparente.
Todavia arde, queima.

Dentro de mim, tudo é assim, como ar.
Mas do perdão ao esquecimento nenhuma ponte pode ser concluída.
Base sólida constitui-se de amor inócuo, puro, pouco egoico,

Três grandezas formam a inequação absoluta.
Segredos.
Um espelho à luz do nada.
O que se acumula no vazio só pode ser ar.
Plasma inútil?!

Fragmentos, vácuo, vão...
O abismo é maior que o tempo infinito.
Costuma ser eterno um curto momento.

O diferente.
Partículas são inteiras; fragmentos são detritos.
De um replica-se; doutro, no máximo emenda-se.
O completo é; o que se partiu, miúdo, sabe-se lá.

Uma ponte de ar sobre o abismo.
É preciso coragem para atravessá-la.
É preciso coragem para cruzar o deserto vão.
Pise-a ao menos, digo.

De repente, certas horas, um clima...
Certos dias, qualquer fenômeno desconstrói o mundo.
Garoa, hoje, está frio.
É sempre frio noturno no deserto iluminado.

_Vamos, menino, levante-se! _ ordena-me um.
_ Pra quê!? _ eu.
_ Trabalho, compromissos _ outros.

Ambos sou eu que nada sou.
E tantos outros, entanto.
Você não conhece Barão de Cocais, conhece!?
Você não me conhece.
Conheceria, um dia.

Amanhã _ ou depois _ nunca mais será a mesma.
Minas está uma angústia só. Logo será.


Sufocada.
Somo pedra-sabão batida, lisa, pisada.
Cosida, cozida…
Do fogo às cinzas desalma.

Nem todo ouro de debaixo da terra vale mais que a paz de uma natureza monótona.
E o que é monotonia?
Nem a folha do coqueiro nem a água da fonte, nem o canto da cigarra, nem a brisa, nem meu coração, nem as pálpebras e cílios se repetem em seus movimentos.
Só lágrimas.

Melancolia, sim, todos conhecem um dia.
Choro é choro.
Dor dói.

A natureza é mãe, não é monotonia.
Sensaboria é ausência de esperança.
Quanto mistério da raiz ao caule circunda?!

A brisa passa por entre os ramos
Uma dança silenciosa
Hastes tombam.

São idênticas. Parecem idênticas.
Da mesma gramínea, têm a mesmas proporções e tonalidade;
Porém, a flexibilidade é peculiar a cada elemento bailarino.
A sincronicidade na desarmonia.,
A penugem, o dente-de-leão...

A brisa sopra para todos _ com a mesma intensidade _ há harmonia.
Dança-se conforme o som, conforme as notas chegam aos ouvidos.
Conforme a natureza dança.

Da inocência à maturidade saltita-se como Saci, feliz.
Café com pão, café com pão: era o barulho do trem.
Hoje é zunzunzum. Nada,

Ninguém.

Maria se foi. Foi-se, María.
Foice.
Maria foice.

Quantas Marias degolam;
Quantas degoladas!
É um trem que passa.

Barão de Cocais...
De certo há orquídeas ainda, beijos...
Nas encostas, na relva, nos moinhos, sempre-vivas brilhando como estrelas.
Pérolas.
E borboletas como anjos aos olhinhos da criança.

Havia mina ali.
Diamantes.
Na mata, havia onça e javali.

Havia, antes da Vale, havia.
Canto de carro e de boiadeiro.
Os beija-flores chegaram primeiro.
Precisamos da Vale?

Tudo passa, dizem.
O trem passa
Maria, a vida,
Tudo fumaça.
O burro, os bois, o cangalho…

O Brasil inteiro tornou-se Vale;
Brasileiros, cascalho.


quinta-feira, 14 de março de 2019

O breve discurso do ministro

Horário de almoço.

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Dias Toffoli, abriu a sessão com breve e velho discurso sobre violências e tragédia, em menção ao ocorrido em Suzano. "Não podemos aceitar que o ódio entre em nossa sociedade." Isso e outras coisas não me saíram da cabeça.

A vaidade profissional, natural de quem ocupa cargo de poder, não deixa servidor de destaque ver que o país mudou, a realidade é outra.
"Violências como essa não fazem parte da nossa cultura." Será mesmo?

Há muito tempo a violência faz parte da cultura do nosso país. A covardia e o desespero vão mudando a cara, deixa de ser um grito silencioso, simples assim. Logo teremos uma violência típica, exclusiva, com a cara do Brasil sitiado e globalizado.

Entre as afirmativas do seu discurso, nas pausas, ensaiadas, de silêncio e marcescível expressão de comoção, o juiz poderia abrir espaço para um relevante e profícuo debate: segurança pública, responsabilidade do poder judiciário e responsabilidade social. Visitas ao palco de tragédias e palavras de condolências e solidariedade não atendem às necessidades de uma nação que clama por atitudes de benefício e respeito.

"A juventude traduz futuro e esperança." Aonde?!

Pergunto a mim, e aos excelentíssimo, senhoras e senhores, onde falhamos, o que e onde omitimos e deixamos de fazer, e o que podemos fazer de imediato para evitar horrores como esse.

A verdade é que, a juventude não tem esperança, não enxerga futuro porque não existe horizontes; além do que se vê abandonada, em descaso, ignorada pelo poder público e pela sociedade. Têm-se apenas um “se vira!”, “acredita!”, “FODA-SE!”.

O almoço fica indigesto. Volto para o trabalho.
As reformas, trabalhista e da previdência, são provas atuais de atos cruéis de desrespeito e desumanidade. Amanhã veremos tragédias iguais dentro de empresas privadas e estatais. Principalmente estatais de economia mista.


Você, excelentíssimo, e eu, e o dono do mercadinho, dormiremos de consciência tranquila? Não. Não se ainda formos humanos.
Pronto falei!

quarta-feira, 13 de março de 2019

Loucura urbana


Desafios.
Alguns eu venço diariamente:
Levantar toda manhã;
Ir para o trabalho sem pensar no sacrifício _ é osso!
Entretanto, trabalhar é bom. Eu gosto.
Ao fim do dia estou exausto, morto.
Pela manhã ressuscito.

O mundo é impuro.
Sou mundano.
Muito do mundo me cura.
Muito há de engano.

Ele é cinza, o mundo.
Quando não, quase sempre, é escuro.
Ai está o bom das ervas.

Pinto, risco, coloro, assopro o giz
A autoestima sobe;
Se não a engole o dia
À noite o mundo a si mesmo colore.

Veja o cárcere, adormecer.
O mosquito, o teto, zonzeira...
O relógio zonzo.
Mais zonzo que as horas,
O tempo.

Suplício é ter em quem pensar estando só.
Sexo, é uma esponja de ilusões umedecida.
Se posso, gozo. Senão…

Vejo a lua entrar pela janela.
Quando não há por abrir rasgo o teto.
Já criei firmamentos que nenhum gênio imaginara.

O mundo é um campo de batalha.
É o destino, é a vida.
Tens um mapa? Uau!
Onde começa e acaba o labirinto?
Fico ébrio.

Leio-o, o mundo, muito.
Muito ler cega.
Disfarço.
Na verdade, sou disléxico.
Às vezes me faço.
Sigo.

Desafios,
Noite e dia.
O círculo tem sombra e luz.
Claro, se há sombras, logo...
“A consciência nasce do contraste”, dizem.

À noite, a mente não enxerga sinal vermelho.
Uma nave em cada via, ou muitas em todas.
Cria-se para si galáxias e órbitas.

O ser humano está em fase de mutação, acelerada.
No que ele está se transformando?
Doenças comportamentais.
O diagnostico é um desafio.
Evolução?

Amanhece.
Se somos imagem e semelhança de Deus, não somos humanos.
Ele disse: “Façamos o homem”, homem e mulher os criou.
Humanos, pode ser que já existissem.

O transporte pública sufoca o trabalhador.
O trabalhador sufoca o trânsito.
O transeunte erra.

Desgastante sacrifício.
O assédio, a humilhação, a resistência
Pouca recompensa.
Aquém resiliência.
Talvez, fôssemos todos políticos o sacrifício fosse menos.

Pensando friamente, crer em um deus, criador do universo, é loucura.
Friamente pensando, não crer é loucura maior.
Tudo do nada, por nada. O homem...
Conscientemente, loucura é em nada crer.
Bem, prefiro crer Deus inspiração.

As pernas lisas, roliças, brancas como curau.
As pernas trementes fazem tremer minha imaginação.
Um enrosco na madrugada, quem o tivera?
A coxa arranhada.
Alguém foi feliz na madrugada.
Madrugada fria.
Contas a pagar… devo um livro pra biblioteca… minha bursite...
O mundo é desigual. Tudo é desigual!
Injusto!?
Conheço o homem.
O que será que a atraiu?
Ele é feio, mal-acabado; pior que exótico.
Exótico seria elogio.
Feliz é o outro.

O pão da minha fome o suor não o produz, fermenta-se na insubstancialidade.

Espero o sol.
Não quero morrer com fome.
Afinal, sou ou não divino?

domingo, 10 de fevereiro de 2019

No ninho do urubu


Toda tragédia, quando acontece de surpresa,
é como uma máscara que cai e expõe o horror da realidade.
Quando anunciada revela o valor predominante da humanidade.
Eis o triste compêndio:
Na madrugada da sexta-feira oito _ não era treze _ houve um incêndio.


Um container de sonhos
Num campo enorme, verde, imponente
Aonde dia e noite a ave alçava voo, na cabeça
Nas mãos e pernas de atletas inocentes.


Um container de sonhos virou cinza.
Atletas de ouro, crianças ainda,
Na flor da idade, carbonizados.


Quanto vale pra outrem a conquista da felicidade?


Ainda dizem: “acidente, acaso”
O descaso dos homicídios
Que interromperam a mocidade.


Acaso crianças são minérios do vale
Lavados, lavrados, extraídos da terra,
Como o pó da pedra, amontoados num trem
Pronto para serem vendidos?


Lamentam, decerto. Decerto que sim,
O quê? Como? Por quê?
Pelo contrato recusado;
Pela moeda não convertida;
Será
Qual perda realmente lamentam?
A promessa, a vida
Ou as condições da tragédia ocorrida?


No ninho do urubu tinha luta, hoje tem luto.
Amanhã, talvez tenha melhorias
E outros colherão o fruto.

Minas sangra


Minas sangra
A terra padece
Muito ainda tem que padecer.

A consciência é fruto delicado.
Miolo de rosa, às vezes
Morre antes de nascer.

O homem... o que é o homem?
O homem é arbusto tinhoso,
Demora florescer.

Tornara-se acre, Minas.
O cheiro, entanto, não é do ananás.
Das entranhas da terra sai lama, borra
Veneno de satanás.

Escorre da serra venosa das minas
Vida e a morte
Expurgadas com a seiva vital.
Minas, hoje, é lama infecciosa
Aonde fora fértil lamaçal.

Lama de minério, lama viscosa
Lama tóxica
É doença que vasa no quintal.

Minas, preciosa e rica,
Contaminada,
É nada.

Das entranhas expele o pus _ sabe como é?
Doença hemorrágica da ambição.
Nada sobrevive a este mal
A menos que aja de coração.

Quanto vale a vida? pergunta o poeta.
E do ventre ressequido vem o lamento, um gemido, um grito;
E no vale umedecido de lágrimas
Não, Minas, hoje, não cabe no coração.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Bromélias de Minas


Acabou-se o leito do rio
_ nosso pequeno riacho _
E lá se foram todas as bromélias
Arrastadas rio abaixo.

E o ninho de Guaxo?! Tinha filhotes.
Quem viu, viu; não os vereis jamais.

Foram levados pela enxurrada de lama
Do estrato ferroso das minas de Minas Gerais
Ai, acabou-se o leito; acabou-se o rio
Acabaram-se os quintais.

E os nossos sobreviventes
_ sim, hão de sobreviver à dor!_
Ao tocar adiante a vida, contarão histórias,
Porque uma tragédia nunca é esquecida.
Enfim, contarão histórias verídicas
Dos entes seus e de outras famílias.

E alguém há de se lembrar das bromélias
Dos beija-flores, do guaxe, dos destroços…

Será que alguém viu naquele carvalho,
Aquele dia,
Naquela manhã
As novas orquídeas?…

domingo, 27 de janeiro de 2019

Prazer e solidão


Na noite monótona de silêncio
Em que parece imóvel o tempo
E se ouve apenas a respiração
E o pensamento
É difícil conter a angústia,
Tão grande é o sofrimento de quem ama.

O coração se inflama, não cabe no peito
E não há remédio que dê jeito
De conter o desejo, a dor, e a solidão.

Cria-se e recria o ambiente perfeito
Como preparasse o leito
Sabendo tão breve o prazer
Como breve é a vida e sua ilusão.

Depois vem o vazio
Como embrulho sem conteúdo
O prazer do nada, absurdo
A queimar-se de frio

E a chama gelada murcha o coração
O alívio é adormecer
Mas logo vem amanhecer
E renova-se a aflição.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

A maldição do minério


Minas tornou-se um mar de lama,
Castigada pela maldição do minério.
Vale tudo nos vales de Minas, porém
Nada vivo tem valor sobre a terra.

Incêndios, tratores rasgando as serras
Causam angústia, dor, aflição de cemitério.
Aonde antes havia curió, suçuarana, quenquém
Nada canta, só tem feridas _ mazelas do império.

Ouro Preto, Itabira, Congonhas, Santana,
De belas artes barroca e contemporânea,
Guardam bons causos de poetas, nativos e doutras bandas.

Mas o retrato de Minas são os rios, serras, belas cachoeiras
_ belas estâncias _;
Entanto, de ali: Ipatinga, Brumadinho, Mariana, hoje
O cenário é de grande tragédia, pesadelo;

Aonde, antes, era humanidade, esperança, novenas _ muita reza e riqueza _,
Instalou-se a corrupção, a bolsa, a ganância, a frieza mundana
E Minas sufocada está num imenso mar de lama.

domingo, 20 de janeiro de 2019

Uma característica do amor


Que força poderosa tem o amor!
De aparência frágil, inocente,
nasce determinado, rompe barreiras
bem cuidado, impulsiona a vida pra frente;

Qual planta viçosa abre fendas no asfalto
vence as pedras mirando alto, o céu
Inda floresce,
E cativa a alma da gente.

Gosto de pensar o amor assim, bem cuidado
Como fosse um jardim, meu e seu
E de quem passa, vê, ou mora ao lado.

Contudo, deveras frágil é o amor
Como flor que exige cuidado constante
Embora, sobremaneira forte, é frágil, inocente.

sábado, 5 de janeiro de 2019

Aos donos da pátria

Pátria amada
desarmada
desalmada
Da esperança tua fizeram mito.

Teus filhos legítimos, agora
novamente vencidos
sem norte vagueiam. Por hora
sonâmbulos bambeiam, incrédulos
N'algum ponto do abismo.

Pátria amada
Desamada
Nenhum guerreiro lhe resta:
semideuses e deuses e tribos;
Inda assim teimo, me armo
_ de sinistra à destra _, arrisco.
Prisioneiro fico.

Do norte, do centro-oeste, sopra vento duro,
mas quem ousará apagar a cicatriz, o sonho, a vontade;
a digital que se cravou nos muros?

O que fazer do amor


O que fazer do amor quando,
não correspondido, incomoda;
incompreendido,
julgam-no errôneo, insano.
é nada;
apesar de belo, assusta;
temido é, sem o ser nocivo,
entretanto, teme que cause danos.
E ele salta,
vira e revira, desavessa alma,
contorce, dança, palmeia
como pulga bailarina, minhoca,
no palco-abismo rasteja
à própria sorte?

Tão imenso, visto à sombra
Tão nobre, de decoro, uma muralha invisível
que, à meia-luz, tanto agrada quanto assombra
almas pequeninas
tal fantasma deixando a cruz!

Ribombo
no peito o gongo cala.
Infinitamente morre.
Eternamente vaga
lume
espirando luz.