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segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Foda-se!

Parece o fim, mas é apenas o começo
O homem que usa arma exige respeito.
Blasfema, grita, ameaça e é eleito.
Parece o fim, mas é o começo.

A família, o grupo, autoridades batem cabeça.
Os órgãos, entidades, mestres procuram dar jeito
Todos subjugam-se _ questionam direitos.

Mas todo movimento é motim, conspiração,
São todos suspeitos.
Parece o fim, mas é só o começo.

É de humanidade que a alma é feita
E para a humanidade que o homem foi feito
E pela humanidade quisera aceito,
Humilde, egocêntrico, completo e imperfeito;
Mas por ela, aos poucos, está sendo desfeito.

Na calçada:
O mendigo exibe seu cachecol. _ achara-o no lixo.
Mas ele não tem barraca, um ponto fixo.

O morador de rua, descalço, mostra-o seu gorro.
Uma voz rouca dá-lhe um esporro.
O mendigo: "eu tenho um par de chinelos" e pensa: "sou melhor que você!"
O outro tosse, se cala, não tem o que dizer.

Ainda deitado, enrolado na coberta encardida, um casal geme.
A companheira, vaidosa, estica-se, balança os pés; teve orgasmo.
Antes, sapatos semi-novos.

Mas alguém tem moedas. Tilintam-nas.
Outro é cooperado, tem dinheiro: moedas e notas numa carteira velha.
Sarcasticamente brincam.

"Nossa, quanta pobreza!", reluz no ar um cartão.
São quase onze, ninguém tomou café da manhã.
Mas alguém esconde um pedaço de pão.

Na entrada do mesmo shopping:
Tenho celular novo.
Eu tenho carro.
Eu tenho casa e carro.
Eu tenho carro, casa, e diploma superior.
Estudei na USP.
Mestrado e doutorado FGV.
Estudei em Harvard.
Sou amigo do padrão; almocei com a família.
Ninguém ousa rebater.

Chega o ladrão: "eu tenho a arma."
Vem a polícia, a ambulância, os curiosos...
O desempregado suspira _ Obrigado Deus, eu sou feliz!
Foda-se! Cada um já fez-se senhor e juiz.

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