Meus livros

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terça-feira, 31 de janeiro de 2017

O despertar

Não importa a cor do pássaro e sim o seu canto.

Antes de abrir os olhos ainda ouvia o silêncio como uma voz harmoniosa dentro mim juntando-se a outras vozes em coro, o que eu entendia ser o som do cosmos.
E veio um movimento seguido de um som externo, do homem, e me despertou.
Ainda antes de abrir os olhos ouvi ruídos. E veio o primeiro pensamento: a imagem dela, o seu nome, a lembrança luminosa do sorriso, da voz soando como doce melodia.
A vida se iluminou. A vontade de vida correndo pelas veias como energia quente que acelera o coração.
Aí veio o som exterior, compromissos, o ruído do homem. E outros pensamentos ocuparam o vazio que não era vazio; era espaço essencial para que houvesse harmonia.
E eu abri os olhos, não obstante via bem menos que antes. Nada.
E de olhos abertos orei. Deixei água cair nas mãos em concha e depois banhei o rosto. Quase reconheci a imagem do espelho. Concentrada, quase carrancuda, casmurro, forçando um sorriso que não vingou.
Aí um pássaro cantou na janela.
Fui abri-la. E sem sentir os meus passos movi a persiana.
A ave replicou o canto. O sol invadiu a casa. Então percebi o sentido da vida.

Que seja esse o canto da manhã. Paz!

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

E a nossa história

Deixaremos morrer a nossa história, assim, sem final feliz? 
E como fica o nosso compromisso com a humanidade? 
E como fica a nossa missão?
Acaso seremos capaz esquecer que o nosso compromisso com a vida é o nosso compromisso com o amor e vice-versa? 
O nosso fracasso será o fracasso da humanidade e, por consequência, deixará cair em descrédito todo o potencial do amor.
Não foi por acaso que Deus fizera cruzar nossos caminhos. 
Não, não foi por acaso que Deus nos pusera no mesmo caminho.
Não foi por acaso que Deus nos fizera humano à sua imagem e semelhança.
Deus quer sentir prazer humano, o regozijo de ser humano por meio de nós.
Entre tantos lugares no cosmos Deus escolheu nossa galáxia; 
Entre tantos planetas nessa galáxia Deus escolheu a terra; 
Entre tantos lugares na terra Ele escolheu esse continente;
E entre as regiões escolheu a nossa América para nela criar o microcosmo perfeito, você, e um sol deslumbrante, o teu sorriso. 
E veja só, você é o universo do amor. 
Talvez você seja (mas não se deixe ficar demasiadamente vaidosa), mas talvez seja você a mais sublime inspiração divina. Talvez a tenha criado antes de tudo. Talvez tenha criado o universo inteiro e o moldado para então recebê-la.
E após maravilhar-Se e constatar que tudo era bom, então a tenha enviado para alegrar corações e iluminar os espíritos.
E com esses olhos que trazem em si toda beleza do universo, sua alma reflete feixes de luz que emergem dos olhos do criador. 
E o teu sorriso... Ah!  Tu sabes, é o meu sol.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

A mulher

Somente a mulher, tal qual a que eu amo,
É capaz de sorrir se o coração sangra.
É fúria contida, é paz, é luz e sombra;
É orvalho ao sol protegendo a rama.

Somente a mulher, tal qual a que eu amo, é divina e humana:
Tem poder sobre tempo, tem peito, anseios, tem seios,
Mas é inteira mamas.
Incendeia o mundo e com um simples gesto apaga as chamas.
Trata a vida com esmero,
Acolhe o riso e a dor,
Pega espinhos brutos e os transforma em flor.
Todo novo amor é sempre o primeiro;
Por isso tem frescor, é virgem sempre, o ano inteiro.

Todas as mulheres, tais qual a que eu amo, são divinas e humanas.
Isso explica porque a mulher sempre se renova, renascendo pra vida, no seu doce aroma. Arde, aflora e sangra. 
E quando não sangra...

Eis o milagre da vida e a felicidade de quem ama.

domingo, 15 de janeiro de 2017

Do Fundo do Meu Coração






Marisa Monte

O Sorriso e o Bom Dia


Antes da saudação sempre compartilhamos o sorriso
E a tua luz ilumina o Bom Dia.
Eu sei que esse é um ritual sagrado de evocação de Deus, e Ele, Deus, sempre se manifesta instantâneo, pois,
Nesse instante podemos sentir a sua presença divina.

Eu gostaria que o nosso abraço não se desfizesse tão depressa,
Que ele durasse tempo suficiente para a satisfação do abraço,
E quando terminasse, espontaneamente, e o nosso olhar sorrisse um para o outro, fosse esse sorriso, dos teus olhos para os meus olhos, a continuação do abraço;
E a gente permanecesse assim, de mãos dadas, como num abraço infinito, até que outros gestos de outras vontades solicitasse a sua vez, tudo naturalmente.
Assim seria a vontade do amor agindo em nós.
Assim seria, realmente, Bom dia!
 Hoje, deixe que o amor abrace a quem você ama, sem pressa,
E se você sentir que é amado, seja generoso.
Não apresse o tempo; não acelere a vida; respeite o compasso e a natureza de todas as coisas.
Tudo está em movimento constante e em alternada aceleração;
Tudo vibra;
Nada está parado;
Tudo tem o seu ritmo.
O amor também é assim,
Um universo dentro de um universo em movimento.
Eu vi gotas de orvalho brilhando nas pétalas da flor
E a minha alma aspirou o perfume que desperta a fome,
E a vontade de viver se despertou em mim.
Agora, meu amor, o sorriso e a luz nos mostra o caminho;
Temos apenas que ouvir o coração, pois o divino habita em nós.


domingo, 8 de janeiro de 2017

Coisas suburbanas

(Do livro "Só para os íntimos", por Poetray, em breve no Agbook)

No dia seguinte eu fiquei só com os meus pensamentos. Quando o ônibus deu partida ela ainda não havia chegado. Após a primeira curva eu a avistei vindo apressada, mas estava longe. Havia outras mulheres, tão bonita quanto, bem pertinho de mim, embora atraentes não vi nada que inspirasse nenhuma sacanagem. Uma até invadiu meu pequeno espaço entre os bancos. Mas o pensamento na lembrança da mulher ausente predominou.
Dois dias depois, numa sexta feira, ela entrou no ônibus e ficou exatamente encostada em mim, esfregando a xoxota no meu ombro. Titubeie no que fazer. Ofereci o lugar.
_ Sente-se, por favor.
_ Obrigado _ Ela sorriu lindamente _, eu estou bem.
Ofereci-me para segurar a bolsa. Era cara, de marca, couro legítimo. Deixei a bolsa no colo, o que foi muito útil para esconder a manifestação do garotinho querendo saltar para fora. E a blusa que ela trazia no braço escondia o meu ombro encaixado entre as suas coxas. Parecia estratégia. Juro que em pouco tempo senti cheiro forte, adocicado, de mel e flores ao sol. Ao olhar para cima, para iniciar uma conversa duradoura, ela mordeu os lábios e fechou os olhos. Fiquei sem palavras. Meu ombro começou dar fortes impulsos, como se tivesse levando choque, como se soluçasse. Eu também fechei os olhos. Concentrei-me no perfume. Flores do campo. O garotinho remexendo dentro das calças se enforcava num pentelho. Tão desastrado, o pobrezinho.
_ Hei, acorde _ ela disse, me alisando os cabelos e pegando a bolsa _ chegamos.
_ Nossa! Tão rápido né?
_ É verdade, que pena.

sábado, 7 de janeiro de 2017

Totalmente nu

Eu não estou aqui, penso, e esse cara não sou eu.
EU estou no silêncio de um quarto, ouvindo música e esperando alguém. É um quarto aconchegante. A cama parece muito grande e espaçosa. Medida assim, mentalmente, é difícil acreditar que sempre falta espaço e se torne tão pequena a ponto de eu quase cair na ansiedade de trocar de posição sem interromper o prazer. Eu sempre tenho que me firmar de alguma maneira quando executamos giros improvisados. Há um vazio enorme entre a interrupção de uma seção de carícias gostosas e o início de outra que nenhum de nós imagina qual seja. Mas, por melhor que sejam, depois de um tempo, o carinho se torna monótono e enfadonho, por isso eu sinto uma incontrolável necessidade de mudar, então invertemos, trocamos posição, repetimos ou recomeçamos. Recomeçamos sempre por um olhar de breve contemplação e um afago. Gosto de contemplar seus olhos e seus seios... Mas o meu pensamento está sempre na sua bunda maravilhosa e na sua boca. A boca é para onde sempre retorno em busca de um beijo...
Um grito quebra o silêncio após a ultrapassagem de um carro. Odeio palavrões.
No ônibus lotado é aonde sinto maior necessidade de criar uma fantasia para fugir da realidade. É desumana essa tortura pela qual o trabalhador é submetido para ir para a tortura maior de ganhar o pão de cada dia. Por isso eu já tenho um mapa traçado de pontos turísticos para onde me refugio. Todos são paraísos eróticos. Porém, no ônibus não é o melhor lugar para esse tipo de pensamento. De pé tem o perigo de ser acusado de estupro ou atentado ao pudor; sentado, tem o desconforto de ter de ficar ajeitando o pau, que parece sempre cresce mais do que é normalmente e se machuca no tecido ou se enforcando num pelo da região pubiana. Além disso, na hora de levantar sempre tem uma mulher ou um gay de olho no bendito volume estufando as calças. Às vezes uma mancha denuncia o pensamento libertino. “Eu não estou aqui, esse cara não sou eu”, penso.
Somos julgados até pelos nossos pensamentos. Ninguém merece!
Adoro ficar nu. Nu, sinto-me beijado por todos os espíritos. A brisa me acaricia, o sol me acaricia, a chuva me lambe da cabeça aos pés e se escorre em deleite levando consigo o meu cheiro. Assim me sinto inteiro sexo.
Mas também tem as chamas, a enorme língua de fogo do inferno tentando fritar meu cérebro, queimar a minha consciência, condenando minha alma ao sofrimento eterno. Desde criancinha, antes mesmo de saber que era gente, fui atormentado com a ideia de que ser feliz é pecado. Sentir desejo é pecado. Gozar é pecado. Se para um homem isso é uma tortura, imagina para uma mulher?  É uma ferida que sangra sem parar, uma dor íntima, causada por um monstro que nossos pais e as religiões tornaram feroz soltaram dentro de cada um de nós inocentes filhos de Deus.
Eu cedi o lugar para uma mulher e ela me agradeceu com um sorriso lindo. Só o sorriso já seria o suficiente pela minha gentileza, mas ela é generosa. A cada arrancada ou movimento irregular do ônibus ela me olha e sorri. O meu pau estava esbarrando no ombro no ombro dela, por isso empurrei sutilmente o cara do meu lado me desloquei mais para o lado. Mesmo assim a cada movimento ela esbarra em mim. Fiquei meio torto. O ombro dela agora está encostado em mim.
Ela está curvada, segurando no banco da frente. Por que ela não fica encostada como todo mundo que está sentado? Ela me olha e sorri novamente. Os olhos também são lindos. Demorou mais me olhando dessa vez. Está olhando para... Será que estou com o zíper aberto? Esse maldito às vezes abre sozinho. Ela nem disfarça mais. Que descarada! Aí, meu Deus! Que delícia de peito! Por que ela tem de puxar a blusa assim? O decote já mostra tudo. Que calor é esse!? Ela vai se levantar.
_ Obrigado. Você foi muito gentil.
Parou na minha frente. Encostou a coxa em mim. Eu me afasto. Ela entrou no vão. Bunda e pau se acomodam. Ela não desce. Outra se senta no lugar. O garotinho se mexe e ela o sente e o encaixa. O vestido é fresquinho, tecido macio, fino, cheiro de amaciante, xampu talvez. Os cabelos longos, ainda úmidos, dançam no meu rosto. Está toda apoiada em mim. A outra nos observa. Não sei interpretar a expressão facial.
Descemos. Na estação entramos no mesmo vagão que logo lota. Ela está sempre de boca entreaberta. Parece que está sempre pronta para beijos, penso. Tantos corpos feios encobrem nossa visão.
A vida vai me despindo aos poucos. A cada hora cai um pedaço da minha fantasia. Estou completamente nu. Na verdade, já roubaram minha fantasia de nudez. Essa pele, esse cabelo, essa face, essa roupa, essa aparência enfim, nada disso sou eu. O que resta de mim é invisível. Só um pouco do que sou reflete em poucos instantes do dia, como um sol que da as caras e logo se esconde. Mas não se é o mundo ou eu que não merece a luz oculta que tão pouco irradia. Iluminar o que se a negritude é intransponível?
Eu não quero pensar em trabalho. Também não quero pensar nos enigmas dos desafios acadêmicos. Estou no vácuo e um montão de problemas cutucam meu cérebro. Em momento assim é difícil se agarrar a um bom pensamento, mas tenho de me agarrar a algum fio para me balançar enquanto me recobro o equilíbrio. Será que alguém consegue realmente ficar pelo menos um segundo sem pensar?
Quando sou flagrado totalmente nu as pessoas se assustam. Acham que sou muito alienado. Não sabem que é na alienação que é aonde existe vida. “Você pensa tanto!”, dizem. “Para tudo que você olha parece ver algo que ninguém mais vê.”

“A vida está ficando escassa tal qual o homem na sua real condição humana”, eu penso, mas não digo nada, não entenderiam.

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