Meus livros

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segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Quem sabe um dia

Pode ser que eu seja necessário um dia.
Pode ser que amanhã o mundo acorde com necessidade de rever conceitos.
Pode ser que o mundo acorde.
Acorde...
Acorde e queira ajustar-se.
Acorde e queira outros valores.
Ai, quem sabe quererão saber do amor.
Ai, quem sabe alguém se lembre de procurar por aqueles que tiveram o coração cheio de amor e coragem de amar.
Então, quem sabe encontrem algo que ficara de mim num verso simples de uma página amarelada.

Pode ser que o mundo acorde de repente.
De repente, pode ser que o mundo acorde _ acorde de repente.
Acorde e queira conserto.

E pode ser que nos encontre _ exemplo de desprezo e solidão, desperdício de vida. Porque amar em vão é vida que se perde.

Pode ser que nos ressussite.
Pode ser que nos una.
Ai, pode ser que você me entenda, entenda o amor, entenda você que vive em mim.
Ai, quem sabe, até mesmo você me aceite aceitando-se a ti mesmo em mim.
Pode ser que aconteça.

Um milagre, quem sabe?!
Embora Dostoiévski até hoje não seja compreendido.
“Você era a encarnação graciosa de todas as fantasias que a minha mente alguma vez concebeu.”

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Amor sem amargura

Muito além do alcance das mãos e do pensamento
Chega a alma de quem ama
Semeando e colhendo frutos do que plantou;
Seja alegria ou sofrimento, a colheita
Será sempre o tempo
E o próprio caminho que alma trilhou.

E se os pés não chegam ao destino
Chora, então, em vão
 _ homem feito _
Novamente menino
Sem colo, sem berço, sem chão.

Deixai, então, o coração livre,
Asas é tudo que alma precisa.
A vida é breve, às vezes leve,
Às vezes dura;
Poucas vezes se vive a vida
Como sonhara a alma
Amor, sem amargura.

domingo, 6 de agosto de 2017

Metáfora

A noite se estende, longa,
Como são as eternidades das esperas.

Durmo como quem descansa
_ a pensar à sombra de uma árvore _;
E acordo cedinho só para vê-la.

Ando sem sentir os passos, as pedras, a rua;
Ainda perambulam almas, desliza a lua, brilham estrelas.

Às vezes enfrento chuva, vento, passo frio,
e tudo que toca meu olhar são metáforas.
E corre o dia, vêm os fatos e o labor, tudo é amor.
Tua ausência...
E tudo que toca minh’alma é metáfora.

Tudo que toca meus olhos... metáfora!
Desse oceano, aonde descansa minha alma e pensamentos
_ à sombra da tua existência.

O mundo é um mar agitado, turbulento
E cada gota é uma alma pensante, das quais se evaporam pensamentos que embalam a vida neste vaivém constante.


Porém, eu, sou agora fragmento de terra, pó _ um grão de poeira _,
que o sol alquimista transformou.
Fora eu orvalho, mas, agora ressequido, ao vento, poeira.
Firo os olhos e tua cegueira.

domingo, 9 de julho de 2017

Mulher

Somente a mulher, tal qual a que eu amo,
É capaz de sorrir se o coração sangra.
É fúria contida, é paz, é luz e sombra;
É orvalho ao sol protegendo a rama.

Somente a mulher, tal qual a que eu amo, é divina e humana:
Tem poder sobre tempo, tem peito, anseios, tem seios, mas é inteira mamas.
Incendeia o mundo e com um simples gesto apaga as chamas.
Trata a vida com esmero.
Acolhe o riso e a dor.
Pega espinhos brutos e os transforma em flor.
Todo novo amor é sempre o primeiro;
Por isso tem frescor, é virgem sempre, o ano inteiro.

Todas as mulheres, tais qual a que eu amo, são divinas e humanas.
Isso explica porque a mulher sempre se renova, renascendo pra vida, no seu doce aroma.
Arde, aflora e sangra. 

E quando não sangra... Eis o milagre da vida e a felicidade dela e de quem a ama. 

Um enigma

Eu sonhei que as pessoas do mundo inteiro davam-se as mãos em volta do planeta.
Eu não entendia porquê.
Ninguém segurava a minha mão.
E eu não entendia porquê...
Os corpos encobria o sol até que a terra ficou totalmente na escuridão.
E de repente alguém sorriu pra mim.
E quando olhei para o alto vi seus olhos brilhando.
E um a um, todos os olhares tornaram-se raios de luz.
E essa luz veio na minha direção, e se expandiu, e penetrou pelos meus olhos e se expandia dentro de mim.
Ai, então, eu acordei. Eu acordei assustado. Assustado, talvez não, mas subitamente; porém feliz.
Ninguém segurava a minha mão, mas todos estavam dentro de mim. Eu estava cheio de luz. Feliz
O que será que isso significa?

Ainda é um enigma.

domingo, 25 de junho de 2017

Três dores, hoje, me maltratam

Dor física, dor moral, dor psíquica,
Fios do mesmo nó
Dor que se tece e se torce,
Sobrenatural, inimiga do espelho;
Força pesada que a nós nos deixa de joelho.

Três dores me maltratam...
Dos males o pior: a dor de cotovelo.
Dores que se fundem, se tecem, dão nó
E formam esse novelo.

Dor fulgurante
Logo se espalha, se esconde
E em dor diversa se faz;
Silenciosamente fere, maltrata;
Não se sabe exatamente aonde
Se vai fica, tira-nos a paz.

Dor surda, cansada,
É a minha dor por ela, por ti,
Por nada.

Névoa se decompondo e se refazendo
Luta de titãs, sol e nevasca
Degelo no coração,
Aflição, agonia, ansiedade e calma.

O vento que venta forte destelha destinos,
Revela a posse da alma.

Alma nua, joia púrpura,
Flor perene à beira da estrada.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Deus Poeta

Se o universo é um gigantesco ser vivo, penso,
Somos as células das suas entranhas;
E se Deus é engenheiro, matemático, também é Ele artista-poeta,
Para colorir com tanto esmero as ilusões, a vida, tardes, noites e manhãs...


Talvez o universo seja sua aquarela, um longo poema;
Talvez o mundo seja um poema.
Talvez sejamos poemas...
Quão belo poema é a vida?!


Ah, nenhum sábio, tal Deus o é, desprezaria sequer um verbo dos seus versos, das estrofes da vida, nenhum pingo dos seus is tirar-se-ia.
Apagaria sim, pontos e vírgulas, para aperfeiçoar as emoções e com amor maior suavizar a trilha sonora da alma, música da vida.
E se Ele, o poeta, tem um livro,
Cuja página do amanhã ainda esteja virgem, certamente, nele imprimiu uma estrela e a ela dera teu nome, e, com respingos da tinta sagrada criou também um homem, um pequeno ser, frágil coração, cujo destino é amar-te, contemplar-te, como faz a Ele os anjos.
Se o universo é um gigantesco ser vivo, penso, quão poderoso e sublime é o Criador, que projetou tudo e organizara num único e imenso arquivo; e nesse arquivo pusera galáxias e seus tempos, e para cada tempo escrevera tantas vidas num só livro... e caprichosamente quis no mesmo caminho você é eu.

domingo, 11 de junho de 2017

Recado

Podemos ser feliz sem pudor.
Por que impor limites aos benefícios da alma?
Amor _ se é amor _, não tem limites;
Não admite restrições;
Aprovação ou protesto, tanto faz.
Amor _ se é amor _ desconhece aflição ou calma.
Por que amor _ se é amor _, quando se manifesta, é festa.
É simplesmente amor. Nada mais.
Rompe a escuridão por uma fresta
E faz do suplício da guerra, a paz.
Porém, o amor vive intensamente todas as estações da alma.
Cria para si, em si mesmo, o tempo;
Cura ferida e traumas;
Assiste a ti mesmo, conforta-se, encalma.
O inverno é cruel para a alma que sofre solidão.
E a solidão é a pior estação.
Esta pode durar o ano inteiro;
Às vezes faz-se inverno em pleno verão.
A alma sonhadora vaga, rasteja
O ser noctâmbulo, assobia
Agudo chamado da morte
E a vida responde, aonde andas?
Tu, destino ou sorte.
Longe da esperança, senti grande solidão.
Longe do amor, senti grande solidão.
Hoje tudo é vulto,
Solidão e amor, vedes vós, oculto.

sábado, 27 de maio de 2017

Aqui, agora

Enquanto caem as folhas e o sol passeia
Tudo parece sereno,
Até os pensamentos e a melancolia;
Coisas de nós se vão ao vento
Mas algo fica anuviando a face,
Inflamando as veias.

Da minha janela, da minha aldeia,
Tudo parece sereno,
Até os pensamentos e a melancolia
_ a saudade traz e leva... _,
Como reflexo de ouro na areia.

Parecem lágrimas celestes,
Dourados raios perfurando a teia,
Como chuva prateada contorcendo os vãos entre folhas dos arvoredos;
Assim como minhas entranhas se contorcem em dor difusa.
Todo o corpo é ferida viva, é medo;
Grito mudo, lamento de chuva,
Gotas de orvalho a inundar aldeia.

O que de sagrado sopra e ao outono incendeia?!
Saudades...
O doce amargo, beleza triste...
Verso sereno que o pássaro gorjeia.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Flor e haste

Ela,
Não é caprichosa mimèsis
Tampouco apurada arte poiein
É obra da natureza, deveras
Completa, em tudo, divina beleza.

Adoro desejar-te
E desejada tu adoras ser;
O pensamento não é libertino,
Afinal, bons amigos somos,
Eu e você.

Diante da flor airosa,
Que faminto olhar desabrolha,
O homem cai;
E tal oculta flor agora exala
Doce aroma que, ao meu, se junta e espalha
O que for, sei lá, se esvai
De volta a ti por nada ser.
Flor desgarrada e eu extinto,
Suprimindo,
Tu em mim
Eu em ti
E o amor sem nada.

domingo, 16 de abril de 2017

A viagem

O que é, afinal, a velhice? 
Eu já sinto os sinais da velhice.
Levo alguns segundos para me equilibrar em um pé só quando vou me trocar;
às vezes me apoio em um móvel ou na parede.
Tenho picos de sonolência;
sonhos se confundem com miragens e alucinações.
Lembranças vêm e vão. Ideias disputam a vez no pensamento e nunca tenho escolha do que pensar.
Tenho visões. O pensamento é nítido e detalhadamente chega à velocidade da luz, ou mais.

Leio as fisionomias e posso profetizar.
Pensar no tempo às vezes me causa aflição.
Minha imagem no espelho sempre me surpreende.
Estou mais tolerante a tudo, porém não indiferente; pelo contrário, mais envolvido.

Sou mais compreensivo.
Ando devagar.
Mesmo acelerando o passo as pessoas me ultrapassa.
Contemplo coisas bem mais que antes e de modo muito mais profundo.
_ A profundidade de todas as coisas começa no superficial, entendo isso.

Ontem eu estive lá.
Vi os meus e os teus. Não estavam alegres nem tristes.
Muitos eu já os conhecia antes mesmo de tê-los visto, outros assim que os via. Outros eram recordações.
Sabia tudo sobre todos instantaneamente.
São mais leves que pluma.
Não são alegres nem tristes, vivem em estado de graça? 
O que isso significa? 
Eles me aguardam futuramente, breve, mas não se surpreendem com as minhas visitas repentinas.


Será que envelhecer é...
Morremos quando compreendemos o limite da vida?

Ah, sim, eu estive lá.
Ah, de longe são pontos de luz. De perto é uma luz multicolorida, suave, condensada.
O diálogo é por telepatia. Os sorrisos alvos. Tudo se sabe de tudo.
Há música suave no vento. Há sol brando. Há silêncio. Há insetos e aves e orvalho nas folhas e água corrente. Há vida. Tudo é vida.
Eu não a vi por lá _ você a quem eu procurava. 
Onde você estava?

A minha cabeça não dói, mas sinto que há uma pressão. Dentro tem outro universo. 
Bom dia!
Feliz Domingo de Páscoa!

domingo, 5 de fevereiro de 2017

O sábado

O sábado acordou-me cedo.
A manhã não menos e nem mais bonita, embora o céu tivesse nuvens coloridas, o que é raro naquele ponto antes de clarear o dia.
Mas isso corroborou para o provérbio que diz que a beleza está nos olhar da alma que a admira.

Á noite o homem tivera pesadelos e instantes de premunições. Sentia-se angustiado. Assim seria o dia, o sábado e o domingo talvez. Talvez a semana...
Mas o homem humilde vive de apelos e seu melhor apelo é a ilusão. Aquela esperança irreal, porque viver não é fácil, é dolorido e cansativo quando se tem muitos sonhos e poucos caminhos. O simples fato de estar vivo já é um grande milagre.

Pensei na pessoa amada, como sempre, antes mesmo de abrir os olhos.
O pássaro não veio cantar na milha janela. Seria mau augúrio?
Não, o homem de fé só dá crédito aos bons presságios. O dia seria de duas partes: pela manhã trabalho e uma longa espera; mas à tarde, o fim do dia seria de amor, e a noite de sonhos.

Ontem...
O suor escorria pelo rosto como sangue destilado.

O sal ardia nos olhos, e num raro e breve descanso cristalizavam-se nos poros e no tecido do uniforme cinza e azul.
O corpo todo dolorido. O relógio se arrastava lento, prolongando os minutos. Mas na terra, aonde caiam gotas de pensamento nasciam flores. Era a esperança de uma tarde feliz, o que não aconteceu plenamente, mas a ilusão ajuda o homem a suportar as dores do momento e a encarar o futuro.

Aí está a graça da vida, na superação. Cada respirar é um milagre, e cada milagre é uma missão cumprida. E a esperança ativa é a porção mágica que nos dá força para seguir em frente.

Então viva. Viva e seja grato; viva e tenha fé.


O amor voou como o pássaro das minhas manhãs.
Mas a vida gira em círculo, como uma ciranda alegre ou triste, e sempre vêm com uma nova cantiga e cores novas no ressurgir das estações.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Clície

A flor menina...
Dá-me sempre um iluminado sorriso
E o esplendor diminuto se expande como sol,
Põe cores novas no universo antigo
E sem prévio aviso se inclina como girassol.

É sempre assim, plena de meiguice
Qual natureza de Clície
Um angelical amanhecer na face da mulher mais linda
Que encanta ao homem pela beleza singela,
Corpo de mulher-menina,
Cujo semblante é meu céu sublime
Pois, cativa minha alma o equilíbrio,
Mas tem ainda o brilho da alegria e paz equânime

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

O despertar

Não importa a cor do pássaro e sim o seu canto.

Antes de abrir os olhos ainda ouvia o silêncio como uma voz harmoniosa dentro mim juntando-se a outras vozes em coro, o que eu entendia ser o som do cosmos.
E veio um movimento seguido de um som externo, do homem, e me despertou.
Ainda antes de abrir os olhos ouvi ruídos. E veio o primeiro pensamento: a imagem dela, o seu nome, a lembrança luminosa do sorriso, da voz soando como doce melodia.
A vida se iluminou. A vontade de vida correndo pelas veias como energia quente que acelera o coração.
Aí veio o som exterior, compromissos, o ruído do homem. E outros pensamentos ocuparam o vazio que não era vazio; era espaço essencial para que houvesse harmonia.
E eu abri os olhos, não obstante via bem menos que antes. Nada.
E de olhos abertos orei. Deixei água cair nas mãos em concha e depois banhei o rosto. Quase reconheci a imagem do espelho. Concentrada, quase carrancuda, casmurro, forçando um sorriso que não vingou.
Aí um pássaro cantou na janela.
Fui abri-la. E sem sentir os meus passos movi a persiana.
A ave replicou o canto. O sol invadiu a casa. Então percebi o sentido da vida.

Que seja esse o canto da manhã. Paz!

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

E a nossa história

Deixaremos morrer a nossa história, assim, sem final feliz? 
E como fica o nosso compromisso com a humanidade? 
E como fica a nossa missão?
Acaso seremos capaz esquecer que o nosso compromisso com a vida é o nosso compromisso com o amor e vice-versa? 
O nosso fracasso será o fracasso da humanidade e, por consequência, deixará cair em descrédito todo o potencial do amor.
Não foi por acaso que Deus fizera cruzar nossos caminhos. 
Não, não foi por acaso que Deus nos pusera no mesmo caminho.
Não foi por acaso que Deus nos fizera humano à sua imagem e semelhança.
Deus quer sentir prazer humano, o regozijo de ser humano por meio de nós.
Entre tantos lugares no cosmos Deus escolheu nossa galáxia; 
Entre tantos planetas nessa galáxia Deus escolheu a terra; 
Entre tantos lugares na terra Ele escolheu esse continente;
E entre as regiões escolheu a nossa América para nela criar o microcosmo perfeito, você, e um sol deslumbrante, o teu sorriso. 
E veja só, você é o universo do amor. 
Talvez você seja (mas não se deixe ficar demasiadamente vaidosa), mas talvez seja você a mais sublime inspiração divina. Talvez a tenha criado antes de tudo. Talvez tenha criado o universo inteiro e o moldado para então recebê-la.
E após maravilhar-Se e constatar que tudo era bom, então a tenha enviado para alegrar corações e iluminar os espíritos.
E com esses olhos que trazem em si toda beleza do universo, sua alma reflete feixes de luz que emergem dos olhos do criador. 
E o teu sorriso... Ah!  Tu sabes, é o meu sol.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

A mulher

Somente a mulher, tal qual a que eu amo,
É capaz de sorrir se o coração sangra.
É fúria contida, é paz, é luz e sombra;
É orvalho ao sol protegendo a rama.

Somente a mulher, tal qual a que eu amo, é divina e humana:
Tem poder sobre tempo, tem peito, anseios, tem seios,
Mas é inteira mamas.
Incendeia o mundo e com um simples gesto apaga as chamas.
Trata a vida com esmero,
Acolhe o riso e a dor,
Pega espinhos brutos e os transforma em flor.
Todo novo amor é sempre o primeiro;
Por isso tem frescor, é virgem sempre, o ano inteiro.

Todas as mulheres, tais qual a que eu amo, são divinas e humanas.
Isso explica porque a mulher sempre se renova, renascendo pra vida, no seu doce aroma. Arde, aflora e sangra. 
E quando não sangra...

Eis o milagre da vida e a felicidade de quem ama.

domingo, 15 de janeiro de 2017

Do Fundo do Meu Coração






Marisa Monte

O Sorriso e o Bom Dia


Antes da saudação sempre compartilhamos o sorriso
E a tua luz ilumina o Bom Dia.
Eu sei que esse é um ritual sagrado de evocação de Deus, e Ele, Deus, sempre se manifesta instantâneo, pois,
Nesse instante podemos sentir a sua presença divina.

Eu gostaria que o nosso abraço não se desfizesse tão depressa,
Que ele durasse tempo suficiente para a satisfação do abraço,
E quando terminasse, espontaneamente, e o nosso olhar sorrisse um para o outro, fosse esse sorriso, dos teus olhos para os meus olhos, a continuação do abraço;
E a gente permanecesse assim, de mãos dadas, como num abraço infinito, até que outros gestos de outras vontades solicitasse a sua vez, tudo naturalmente.
Assim seria a vontade do amor agindo em nós.
Assim seria, realmente, Bom dia!
 Hoje, deixe que o amor abrace a quem você ama, sem pressa,
E se você sentir que é amado, seja generoso.
Não apresse o tempo; não acelere a vida; respeite o compasso e a natureza de todas as coisas.
Tudo está em movimento constante e em alternada aceleração;
Tudo vibra;
Nada está parado;
Tudo tem o seu ritmo.
O amor também é assim,
Um universo dentro de um universo em movimento.
Eu vi gotas de orvalho brilhando nas pétalas da flor
E a minha alma aspirou o perfume que desperta a fome,
E a vontade de viver se despertou em mim.
Agora, meu amor, o sorriso e a luz nos mostra o caminho;
Temos apenas que ouvir o coração, pois o divino habita em nós.


domingo, 8 de janeiro de 2017

Coisas suburbanas

(Do livro "Só para os íntimos", por Poetray, em breve no Agbook)

No dia seguinte eu fiquei só com os meus pensamentos. Quando o ônibus deu partida ela ainda não havia chegado. Após a primeira curva eu a avistei vindo apressada, mas estava longe. Havia outras mulheres, tão bonita quanto, bem pertinho de mim, embora atraentes não vi nada que inspirasse nenhuma sacanagem. Uma até invadiu meu pequeno espaço entre os bancos. Mas o pensamento na lembrança da mulher ausente predominou.
Dois dias depois, numa sexta feira, ela entrou no ônibus e ficou exatamente encostada em mim, esfregando a xoxota no meu ombro. Titubeie no que fazer. Ofereci o lugar.
_ Sente-se, por favor.
_ Obrigado _ Ela sorriu lindamente _, eu estou bem.
Ofereci-me para segurar a bolsa. Era cara, de marca, couro legítimo. Deixei a bolsa no colo, o que foi muito útil para esconder a manifestação do garotinho querendo saltar para fora. E a blusa que ela trazia no braço escondia o meu ombro encaixado entre as suas coxas. Parecia estratégia. Juro que em pouco tempo senti cheiro forte, adocicado, de mel e flores ao sol. Ao olhar para cima, para iniciar uma conversa duradoura, ela mordeu os lábios e fechou os olhos. Fiquei sem palavras. Meu ombro começou dar fortes impulsos, como se tivesse levando choque, como se soluçasse. Eu também fechei os olhos. Concentrei-me no perfume. Flores do campo. O garotinho remexendo dentro das calças se enforcava num pentelho. Tão desastrado, o pobrezinho.
_ Hei, acorde _ ela disse, me alisando os cabelos e pegando a bolsa _ chegamos.
_ Nossa! Tão rápido né?
_ É verdade, que pena.

sábado, 7 de janeiro de 2017

Totalmente nu

Eu não estou aqui, penso, e esse cara não sou eu.
EU estou no silêncio de um quarto, ouvindo música e esperando alguém. É um quarto aconchegante. A cama parece muito grande e espaçosa. Medida assim, mentalmente, é difícil acreditar que sempre falta espaço e se torne tão pequena a ponto de eu quase cair na ansiedade de trocar de posição sem interromper o prazer. Eu sempre tenho que me firmar de alguma maneira quando executamos giros improvisados. Há um vazio enorme entre a interrupção de uma seção de carícias gostosas e o início de outra que nenhum de nós imagina qual seja. Mas, por melhor que sejam, depois de um tempo, o carinho se torna monótono e enfadonho, por isso eu sinto uma incontrolável necessidade de mudar, então invertemos, trocamos posição, repetimos ou recomeçamos. Recomeçamos sempre por um olhar de breve contemplação e um afago. Gosto de contemplar seus olhos e seus seios... Mas o meu pensamento está sempre na sua bunda maravilhosa e na sua boca. A boca é para onde sempre retorno em busca de um beijo...
Um grito quebra o silêncio após a ultrapassagem de um carro. Odeio palavrões.
No ônibus lotado é aonde sinto maior necessidade de criar uma fantasia para fugir da realidade. É desumana essa tortura pela qual o trabalhador é submetido para ir para a tortura maior de ganhar o pão de cada dia. Por isso eu já tenho um mapa traçado de pontos turísticos para onde me refugio. Todos são paraísos eróticos. Porém, no ônibus não é o melhor lugar para esse tipo de pensamento. De pé tem o perigo de ser acusado de estupro ou atentado ao pudor; sentado, tem o desconforto de ter de ficar ajeitando o pau, que parece sempre cresce mais do que é normalmente e se machuca no tecido ou se enforcando num pelo da região pubiana. Além disso, na hora de levantar sempre tem uma mulher ou um gay de olho no bendito volume estufando as calças. Às vezes uma mancha denuncia o pensamento libertino. “Eu não estou aqui, esse cara não sou eu”, penso.
Somos julgados até pelos nossos pensamentos. Ninguém merece!
Adoro ficar nu. Nu, sinto-me beijado por todos os espíritos. A brisa me acaricia, o sol me acaricia, a chuva me lambe da cabeça aos pés e se escorre em deleite levando consigo o meu cheiro. Assim me sinto inteiro sexo.
Mas também tem as chamas, a enorme língua de fogo do inferno tentando fritar meu cérebro, queimar a minha consciência, condenando minha alma ao sofrimento eterno. Desde criancinha, antes mesmo de saber que era gente, fui atormentado com a ideia de que ser feliz é pecado. Sentir desejo é pecado. Gozar é pecado. Se para um homem isso é uma tortura, imagina para uma mulher?  É uma ferida que sangra sem parar, uma dor íntima, causada por um monstro que nossos pais e as religiões tornaram feroz soltaram dentro de cada um de nós inocentes filhos de Deus.
Eu cedi o lugar para uma mulher e ela me agradeceu com um sorriso lindo. Só o sorriso já seria o suficiente pela minha gentileza, mas ela é generosa. A cada arrancada ou movimento irregular do ônibus ela me olha e sorri. O meu pau estava esbarrando no ombro no ombro dela, por isso empurrei sutilmente o cara do meu lado me desloquei mais para o lado. Mesmo assim a cada movimento ela esbarra em mim. Fiquei meio torto. O ombro dela agora está encostado em mim.
Ela está curvada, segurando no banco da frente. Por que ela não fica encostada como todo mundo que está sentado? Ela me olha e sorri novamente. Os olhos também são lindos. Demorou mais me olhando dessa vez. Está olhando para... Será que estou com o zíper aberto? Esse maldito às vezes abre sozinho. Ela nem disfarça mais. Que descarada! Aí, meu Deus! Que delícia de peito! Por que ela tem de puxar a blusa assim? O decote já mostra tudo. Que calor é esse!? Ela vai se levantar.
_ Obrigado. Você foi muito gentil.
Parou na minha frente. Encostou a coxa em mim. Eu me afasto. Ela entrou no vão. Bunda e pau se acomodam. Ela não desce. Outra se senta no lugar. O garotinho se mexe e ela o sente e o encaixa. O vestido é fresquinho, tecido macio, fino, cheiro de amaciante, xampu talvez. Os cabelos longos, ainda úmidos, dançam no meu rosto. Está toda apoiada em mim. A outra nos observa. Não sei interpretar a expressão facial.
Descemos. Na estação entramos no mesmo vagão que logo lota. Ela está sempre de boca entreaberta. Parece que está sempre pronta para beijos, penso. Tantos corpos feios encobrem nossa visão.
A vida vai me despindo aos poucos. A cada hora cai um pedaço da minha fantasia. Estou completamente nu. Na verdade, já roubaram minha fantasia de nudez. Essa pele, esse cabelo, essa face, essa roupa, essa aparência enfim, nada disso sou eu. O que resta de mim é invisível. Só um pouco do que sou reflete em poucos instantes do dia, como um sol que da as caras e logo se esconde. Mas não se é o mundo ou eu que não merece a luz oculta que tão pouco irradia. Iluminar o que se a negritude é intransponível?
Eu não quero pensar em trabalho. Também não quero pensar nos enigmas dos desafios acadêmicos. Estou no vácuo e um montão de problemas cutucam meu cérebro. Em momento assim é difícil se agarrar a um bom pensamento, mas tenho de me agarrar a algum fio para me balançar enquanto me recobro o equilíbrio. Será que alguém consegue realmente ficar pelo menos um segundo sem pensar?
Quando sou flagrado totalmente nu as pessoas se assustam. Acham que sou muito alienado. Não sabem que é na alienação que é aonde existe vida. “Você pensa tanto!”, dizem. “Para tudo que você olha parece ver algo que ninguém mais vê.”

“A vida está ficando escassa tal qual o homem na sua real condição humana”, eu penso, mas não digo nada, não entenderiam.

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