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domingo, 2 de março de 2014

Adoro



Adoro
O jeito d’ela andar _ como pisa _ cuidadosa, acho que pra não machucar muito meu coração; mas machuca. Machuca e eu gosto.

Gosto e tenho ciúmes.
Um ciúme diferente; um ciúme de encanto.

Tenho ciúmes do chão...
Parece que a cada passo que ela dá a terra treme em suspiros, e em ondas de desejo, que só quem é da terra entende e possui, penetra-lhe nas veias e mexe com seu corpo por inteiro.

Tenho ciúmes do vento que lhe desarrumam os cabelos; e aquele riso...
Ah, aquele riso. É como uma luz que cega. Um sol que me absorve e devolve à vida. Aí, sou uma nova flor desabrochando.

Faz-se assim minha loucura. E para o meu desespero e espanto, eu gosto. Gosto de tudo. Pasmo.
E quando descanso nos seus braços vejo o quanto é íntimo e raro nosso momento:        O cara _ a sombra do espelho _ tem inveja de mim, e ri oculto. O sol arruma uma brecha na janela, a lua sai antes da hora, a vida grita e faz silêncio pela rouquidão sofrida; e o tempo para. Para porque não tem pra onde ir. Mas tudo está ajustado.

E a gente anda leve, conduzindo o tempo, na breve harmonia da vida imperfeita, para a desarmonia futura. Sabemos, contudo, que vivemos pra isso: ajustar.

Adoro.
É como estar diante do mar, imenso, olhando o por do sol, e saber que tudo aquilo é seu, somente seu, e o amanhã é um novo dia.

É tudo o que preciso, seus olhos.

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