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domingo, 29 de dezembro de 2013

Da forma como o amor me veio

Assim
Foi como uma fenda se abrindo
Uma esfera se partindo ao meio
Eu, de mim se afastando
E um vazio me dividindo inteiro.

A vida é assim: diversidão compacta;
Um não sei o quê abismático
Uma estranha beleza que assombra, porém é cativante,
Como acariciar pela primeira vez um elefante e depois
Depois se deixar se envolver pelo meigo olhar penetrante.

A vida é assim quando abre espaço para o amor.
Um abismo que se agiganta.
E o amor é o nada que se forma no vazio do vão consoante.
A voz que grita no silêncio profundo
Flor que se abre e fecunda o submundo.

Foi assim:
Um abismo crescente...
E o amor preenchendo o inteiro
No vão do estranho vago
Tão obscura forma me veio.

Eu e eu de mim distante
Tão perto o saber permeio.

O que mais dizer de ti que, ao dividir-me, me completa e a ti me funde e me enleio?

Anderson Silva _ O golpe fatal

sábado, 28 de dezembro de 2013

O Bicho

O Bicho
“Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem”.
Autor: Manuel Bandeira




Manuel Carneiro de Souza Bandeira Filho nasceu em 19 de abril de 1886 em Recife. Em 1903 foi para a cidade de São Paulo a fim de cursar Engenharia na Escola Politécnica. No entanto, em decorrência do acometimento de tuberculose, não pôde concluir o curso. A partir de então, passa por verdadeira peregrinação por diversas cidades e casas de saúde, tendo, inclusive, se mudado por um ano para a Suíça com o intuito de livrar-se da doença. Ao voltar para o Brasil tornou-se inspetor de ensino e depois professor de literatura.
Em 1917 publicou seu primeiro livro – A Cinza das Horas – com características parnasianas e simbolistas. Posteriormente à publicação de seu primeiro livro, o poeta foi se enquadrando no estilo modernista, culminando com a publicação em 1930 da obra Libertinagem, considerada uma das mais importantes da literatura moderna brasileira.
Na obra de Bandeira predominam a liberdade de conteúdo e de forma, o retrato do cotidiano, a sua própria história de vida, o humor,  a indignação com a realidade do homem e a idealização de um mundo mais justo. O autor conseguiu reunir em sua poesia subjetividade e objetividade e o resultado foi perfeito.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Contraste


Observe. Sinta a atmosfera. Existe algo a mais do que lantejoulas e raios do sol de verão, algo mágico e generoso, que esparge brilho nessa época festiva.  

É inegável que a festa natalina ilumina desde a inocência infantil até as faces mais carrancudas dos desiludidos. Tudo se torna mais leve, sob um certo peso de expectativas, claro. Uma apreensão, ansiedade, apelo balsâmeo que, gradativamente elimina os incômodos estressantes.  A vida se torna mais suave. A carranca mais tênue. O espírito casmurro aos poucos se rende à contagiante alegria e, por fim, ao otimismo.

A angústia; ah, a angústia! Se restar um pouco de tristeza, essa se oculta, porque a mágoa se envergonha de si mesma. Ela é uma sombra que não suporta seu próprio reflexo. Toda angústia se retrai ofuscada pelo brilho de um raio de alegria.

Às vezes reagimos como medíocres e somos mesquinhos, mas perdoai-nos; perdoe-se, é força do hábito. A solidariedade e a compaixão são virtudes a serem trabalhadas. As sensibilidades afloram-se com certas práticas. O natal é propício para tais exercícios. Principalmente o do autoconhecimento.

A celebração é de uma gestação completa, dizia mamãe, D. Deca, "sintomas de esperança em cada olhar". Todas as faces revelam uma gravidez enigmática. Todo o período da vida pode ser sentido, da fecundação natalina ao tinir das taças no tintim do começo do novo ano. É tempo de renascer. O ápice, contudo, se dá num largo pico: do natal ao réveillon, batismo e consagração da vida. 

Mas há aqueles que são lentos, sem pressa. Outros apressados, prematuros. O espírito do natal depende do estado de espírito do homem.

O que envolve a alma com tal energia? É o espírito do natal? Seria um hálito Divino? Um suspiro de Deus impregnado de essência humana que, como um manto, ascende as nossas sensibilidades e apura todos os sentidos para a representação digna da imagem e semelhança de Si?  Seria alívio pelo fim de um ciclo? Ou seria o fato, quem sabe, o brilho atraente da luz do esquecimento? O entusiasmo de se saber que nada somos e, por isso, somos tudo por sermos apenas humanos? É frustrante a incerteza. De onde viemos; pra onde vamos...

O espírito de natal é um mito que opera milagres por fazer com que o homem se sinta criança, pequeno e inocente, na sua grandeza de nada ser além do que é: apenas espírito. E espírito, o que somos, ou o que se é, ainda nos é mistério.
 
Sejamos, então, humildes e compreensivos com o próximo. Ele é semelhante. Talvez seja ele prematuro ou talvez lento. Mas não há nenhuma incompatibilidade humana ou Divina. Dê perdão. Seja solidário e agradecido, pois, esse algo a mais, mágico e generoso, que esparge misteriosa luz, é você.

Ho-ho-ho, Feliz Natal!

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Convívio

De manhã, mesa posta.
Pela manhã a vida é generosa; mesa farta, riquíssima:
Torrada, mamão maduro, päo, queijo, mel...;
Amargo somente o olhar  e o bom dia, quando bom dia se dá, é servido ou se colhe.

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