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sábado, 25 de maio de 2013

As vezes que chorei

As vezes que chorei...
Já chorei tanto!
Já chorei sem motivo.
Já chorei de dor, chorei de alívio.

Já chorei por hipocrisia, chorei feito bobo de tanta alegria.
Já chorei nos sonhos, nos pesadelos; 
Chorei por conta do dente, desembaraçando os cabelos...

Chorei muito. 
Chorei com medo. Certa vez chorei à-toa: chorei com medo de chorar. 
Chorei por uma pessoa. 
Às vezes amando chorei com medo de amar.

Já chorei em vão (não se deve chorar por perdão) 
Chorei sem graça; Chorei de pirraça. 
Eu também já fui criança neném, e chorei pedindo peito; 
Chorando, no afã do calor do leito.

Já chorei em demasia. 
E quem nunca já chorou de rir? 
Chorei de encantamento ao ver uma criança dormir.

Meu choro é riso sincero. É flagelo. 
É construção, congregação, dedo e martelo. 
Mas nenhum choro é tão puro, tão sincero, quanto a solidão do grito do quero-quero.

Chorei na despedida (aquele adeus...). 
Chorei tanto, tanto... pensei que ia secar o pranto. 
Chorei no reencontro. Chorei até passar do ponto. 
Chorei!

Um dia chorei vendo o noticiário; 
N'outro chorei ao abrir o armário.

Chorei pela África; tão negra! Tão singela! 
Ah! chorei orando por Nelson Mandela. 
Chorei tanto e me acostumei. 
Aquele povo... não sei; será que ainda os amo ou um dia os amei?... 
Acho que de tanto chorar me desumanizei-me.

Chorei, chorei..., por quê, já não sei.
Chorei no novo emprego, mas chorei por apego.

Chorei no parabéns pra você E chorei no velório do inimigo.
Chorei contigo.

Chorei lendo Drummond que me fez compreender Pessoa, 
e uma lágrima rolou ao ritmo do jazz de Villas Boas.

Chorei ontem e agora; mas qualquer hora é hora.
A vida é um palco e um divã. Quem me dera! 
Quisera mesmo, nesse palco, poder chorar amanhã.

Chorei a cada nascimento de um filho; (aí chorei por abrigo). 
Chorei por esporte. Pelo povo do norte. 
Chorei por angustia, inconsolado, pela morte. 
Chorei até perder o brilho. 
Chorei por alguém num asilo.
Chorei por ela.

Chorei no fim da novela
Chorei calado.
Chorei pelo leite derramado.
Chorei sem entusiasmo.
Chorei durante um orgasmo (em silêncio todos choram por isso). Chorar é para os olhos uma espécie de compromisso.

Chorei ao ver um bicho abatido. 
Chorei de bronca com Deus e de mal comigo. 
Chorei debruçado num ombro. 
Chorei escondido nos escombros. 
Chorei nas entrelinhas de poemas, por equilíbrio,
no meu livro.

Na ficção chorei.
Chorei minha autobiografia.
Ia me esquecendo: chorei ao ver o mar; E chorei olhando estrelas ao luar. Um dia chorei por engano, depois "deschorei". "errar é humano!"
Não, nunca chorei de ódio, chorei o óbvio; chorei pela raiva ter me vencido. 
 Chorei perdido.

Chorei no natal, na páscoa, lava-pés, via-crúcis, ressurreição... Ah, Deus! 
Quanto ainda por chorar! agora que tenho consciência das minhas fraquezas! Mas tudo bem.
Beleza!

domingo, 12 de maio de 2013

Para Sempre


Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.

Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
- mistério profundo -
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.

Carlos Drummond de Andrade )

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