Meus livros

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domingo, 29 de dezembro de 2013

Da forma como o amor me veio

Assim
Foi como uma fenda se abrindo
Uma esfera se partindo ao meio
Eu, de mim se afastando
E um vazio me dividindo inteiro.

A vida é assim: diversidão compacta;
Um não sei o quê abismático
Uma estranha beleza que assombra, porém é cativante,
Como acariciar pela primeira vez um elefante e depois
Depois se deixar se envolver pelo meigo olhar penetrante.

A vida é assim quando abre espaço para o amor.
Um abismo que se agiganta.
E o amor é o nada que se forma no vazio do vão consoante.
A voz que grita no silêncio profundo
Flor que se abre e fecunda o submundo.

Foi assim:
Um abismo crescente...
E o amor preenchendo o inteiro
No vão do estranho vago
Tão obscura forma me veio.

Eu e eu de mim distante
Tão perto o saber permeio.

O que mais dizer de ti que, ao dividir-me, me completa e a ti me funde e me enleio?

Anderson Silva _ O golpe fatal

sábado, 28 de dezembro de 2013

O Bicho

O Bicho
“Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem”.
Autor: Manuel Bandeira




Manuel Carneiro de Souza Bandeira Filho nasceu em 19 de abril de 1886 em Recife. Em 1903 foi para a cidade de São Paulo a fim de cursar Engenharia na Escola Politécnica. No entanto, em decorrência do acometimento de tuberculose, não pôde concluir o curso. A partir de então, passa por verdadeira peregrinação por diversas cidades e casas de saúde, tendo, inclusive, se mudado por um ano para a Suíça com o intuito de livrar-se da doença. Ao voltar para o Brasil tornou-se inspetor de ensino e depois professor de literatura.
Em 1917 publicou seu primeiro livro – A Cinza das Horas – com características parnasianas e simbolistas. Posteriormente à publicação de seu primeiro livro, o poeta foi se enquadrando no estilo modernista, culminando com a publicação em 1930 da obra Libertinagem, considerada uma das mais importantes da literatura moderna brasileira.
Na obra de Bandeira predominam a liberdade de conteúdo e de forma, o retrato do cotidiano, a sua própria história de vida, o humor,  a indignação com a realidade do homem e a idealização de um mundo mais justo. O autor conseguiu reunir em sua poesia subjetividade e objetividade e o resultado foi perfeito.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Contraste


Observe. Sinta a atmosfera. Existe algo a mais do que lantejoulas e raios do sol de verão, algo mágico e generoso, que esparge brilho nessa época festiva.  

É inegável que a festa natalina ilumina desde a inocência infantil até as faces mais carrancudas dos desiludidos. Tudo se torna mais leve, sob um certo peso de expectativas, claro. Uma apreensão, ansiedade, apelo balsâmeo que, gradativamente elimina os incômodos estressantes.  A vida se torna mais suave. A carranca mais tênue. O espírito casmurro aos poucos se rende à contagiante alegria e, por fim, ao otimismo.

A angústia; ah, a angústia! Se restar um pouco de tristeza, essa se oculta, porque a mágoa se envergonha de si mesma. Ela é uma sombra que não suporta seu próprio reflexo. Toda angústia se retrai ofuscada pelo brilho de um raio de alegria.

Às vezes reagimos como medíocres e somos mesquinhos, mas perdoai-nos; perdoe-se, é força do hábito. A solidariedade e a compaixão são virtudes a serem trabalhadas. As sensibilidades afloram-se com certas práticas. O natal é propício para tais exercícios. Principalmente o do autoconhecimento.

A celebração é de uma gestação completa, dizia mamãe, D. Deca, "sintomas de esperança em cada olhar". Todas as faces revelam uma gravidez enigmática. Todo o período da vida pode ser sentido, da fecundação natalina ao tinir das taças no tintim do começo do novo ano. É tempo de renascer. O ápice, contudo, se dá num largo pico: do natal ao réveillon, batismo e consagração da vida. 

Mas há aqueles que são lentos, sem pressa. Outros apressados, prematuros. O espírito do natal depende do estado de espírito do homem.

O que envolve a alma com tal energia? É o espírito do natal? Seria um hálito Divino? Um suspiro de Deus impregnado de essência humana que, como um manto, ascende as nossas sensibilidades e apura todos os sentidos para a representação digna da imagem e semelhança de Si?  Seria alívio pelo fim de um ciclo? Ou seria o fato, quem sabe, o brilho atraente da luz do esquecimento? O entusiasmo de se saber que nada somos e, por isso, somos tudo por sermos apenas humanos? É frustrante a incerteza. De onde viemos; pra onde vamos...

O espírito de natal é um mito que opera milagres por fazer com que o homem se sinta criança, pequeno e inocente, na sua grandeza de nada ser além do que é: apenas espírito. E espírito, o que somos, ou o que se é, ainda nos é mistério.
 
Sejamos, então, humildes e compreensivos com o próximo. Ele é semelhante. Talvez seja ele prematuro ou talvez lento. Mas não há nenhuma incompatibilidade humana ou Divina. Dê perdão. Seja solidário e agradecido, pois, esse algo a mais, mágico e generoso, que esparge misteriosa luz, é você.

Ho-ho-ho, Feliz Natal!

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Convívio

De manhã, mesa posta.
Pela manhã a vida é generosa; mesa farta, riquíssima:
Torrada, mamão maduro, päo, queijo, mel...;
Amargo somente o olhar  e o bom dia, quando bom dia se dá, é servido ou se colhe.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Amei sim





Amei sim.
Amei por você, amei por mim.
Amei por ela, amei;
Amei por amor.

Mas amor solitário é amor inimigo, predador,
Sem abrigo, sem casa.
Pássaro sem asas, sem moradia, sem ninho.
Amei assim: sozinho.

Por muito tempo, tempo em que amei, amei a tua companhia.
Tinha-a tão perto! Perto em mim.
E acabei amando assim: fantasia.

E eu a amei, a possuía, devorando-a sem pudor;
Isso também é amor, sem hipocrisia.
Amor que dói, e no auge da dor gera estranheza pela estranha alegria.
Mas havia uma forma real de amor no gozo da dor que doía.
E talvez seja a única pureza do amor a dor da agonia.

E eu a amei assim: devorando-a sem pudor
 Na calada da noite e em plena luz do dia.
E te amei! Como te amei assim!  Ilusória orgia.

Vem! Volte, por favor,
para esse coração que te ama.



"Quem disse que o crime não compensa?
Na verdade a gente sabe o que todo mundo pensa.
Quem disse que o crime não compensa?
Na verdade, ninguém fala tudo aquilo que se pensa.
Quem disse que o crime não compensa?
Na verdade a gente sabe que a justiça é muito lenta"...  
(Do livro "Um minuto, por favor!" _ Poetray)

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

IBGE abre inscrições de concurso com 420 vagas

Oportunidades são para profissionais de nível médio e superior. Salários podem chegar a R$8,3 mil O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) abre nesta terça-feira (1°), as inscrições do seu concurso público com 420 vagas em cargos de nível médio e superior e salários de R$3.186,10 (nível médio) a R$6.728,60, que pode chegar a R$8.303,24 (nível superior), todos incluem auxílio-alimentação de R$373. As inscrições estarão abertas até o dia 24 de outubro, no site da Fundação Cesgranrio - organizadora. As taxas são de R$50 (nível médio) e R$110 (superior). As contratações serão sob o regime estatutário, que garante estabilidade. Os concursos terão validade inicial de dois anos, podendo ser prorrogada pelo mesmo período. De acordo com o Folha Dirigida, a expectativa agora é que o edital do concurso para o cargo de pesquisador em informações geográficas e estatísticas seja divulgado nos próximos dias. O concurso terá a oferta de 20 vagas e exigindo nível superior com mestrado ou doutorado, e vencimentos iniciais de R$7.420 (podendo chegar a R$9.280,45 com titulação).

sábado, 28 de setembro de 2013

Os olhos ardendo de amor

Tinha os olhos ardendo de amor, o coração palpitante, e no riso meigo percebia-se nítida ansiedade. As mãos úmidas, inquietas, ora ajeitava os cabelos, ora acariciava a si mesma, enquanto mordia de leve os lábios, tendo o olhar parado em algum ponto em mim.

Impossível imaginar o que pensavas. Contudo, bem sei que lançavas uma onda poderosa, energizante, que fazia meu corpo inteiro arrepiar-se estremecido pela impetuosidade do mistério que, me atraindo, me arrastava para juntinho de ti.

Tentei resisti.

Sabia, porém, da minha fraqueza e da incapacidade de ir contra as ordens do coração; pois quando meu olhar confronta-se com os teus olhos, sempre, minha alma mergulha para dentro de ti, deixando apenas um pouco da consciência do que sou em mim, para que eu não esqueça que pertenço a ti, e que toda essência da minha alma só não me abandona para unificar-se definitivamente e eternamente na tua alma, para que não ocorra de o mundo envelhecer e se acabar sem que todos saibam o que é amor. Como os poetas filosofar-se-iam? Senão o amor, igual ao nosso _ chamas flamejantes_ o que mais inspiraria lirismo à voz da paixão? Entende o que eu digo?

Separados somos autênticos e as chamas do nosso desejo jamais se apagarão.

Que saudade! Tínhamos os olhos ardendo de amor e os caminhos inversos.

Trecho do livro: "Um minuto, por favor!"

Um poema interessante

sábado, 21 de setembro de 2013

Almas e flores

Nós

Andamos no mesmo jardim
Tocamos nas mesmas flores.
Nós nos acariciamos
Nós nos abraçamos
De mãos dadas, entrelaçados,
Percorremos juntos por esse canteiro.

Nosso olhar, borboletas aos pares, revoando...
Nossas almas enamorando-se.

Um perfume doce, suave, sopra os meus sentidos...
Teu hálito, entorpecendo minhas asas.
Eu balanço, paro, cedo;


E a vida, então, se reproduz no movimento do beijo.

sábado, 10 de agosto de 2013

Natureza soturna

Abraçara-me, primeiro com os olhos _ luz divina _, depois com abraços e, sabe-se lá quais, pensamentos. E oferecendo-me os lábios à espera do melhor beijo acomodara-me no colo aconchegante. Oferecera-me os belos seios como fosse eu tua criança. Dera-me tudo, sem restrições, e com carinho alimentava-nos de esperanças.

Esperança que jorrava da tu'alma purificadora _ fonte cristalina.  Eu, ambicioso e cruel, lhe abria o coração a verbos defectivos  causativos e anômalos _ navalha afiada, essa língua impiedosa, sem compaixão. Palavras silentes que rasgam, rasgam, rasgam...

Alimentei teus sonhos, despretensiosamente te cobrindo de ilusões...

Devias ter-me deixado à míngua, morrer de ansiedade, me negando o nécta da felicidade. Não, não devias imortalizar-me como fizera. Pobreza e desamparo, e o manjar místico de quimeras às almas soturnas. Amaste até minha excêntrica soturnidade. Por isso, mais e mais te admiro: tens uma maliciosa ingenuidade.

Por isso, e muito mais. Mas que amigo! bem mais, tu sabes, bem mais. Mais que amante... Dois bobos em humílima disposição para o espanto e encantamento.

Vampiro. Eu vampiro, tu borboleta. Tendo a nosso dispor a boceta de pandora e o brinquedo, onde encerra todos os males, contudo, igualmente a única cura.

O lado negro da magia sobrepõe-se à beleza singela da inocência _ essa borboleta dos lamaçais pós-chuva de verão. Devias ter-me deixado ao vento, vagando nos céus, nu de estrelas; devias. Ambos admirando a lua, inexistentes. Mas o homem pertence à vida, assim como a vida ao homem.

Todos dizem "eu te amo" ultimamente; eu não, não mais. Mas teu olhar clínico o percebe: amor oculto _ nunca secreto _ de vampiro faminto, indolente, indiscreto, de alma obscura. Uma poça para o teu breve voejo.

É pena que tu sejas sol, e a vida fizera-me de natureza soturna. Um eclipse, talvez, o tempo que a felicidade perdure.

Texto extraído do livro "Um Minuto, Por Favor!", em fase de conclusão. 

terça-feira, 9 de julho de 2013

Compreendendo o amor

Espalhei pétalas de rosa sobre a cama
Deixei champagne no gelo 
Usei o melhor perfume 
E até decorei um verso do seu poema favorito, e agora o leio: 
"o amor é fogo que arde..."
E à meia luz, ouvindo uma música suave esperei, esperei... e você não veio.
A mesa ainda está posta, a cama feita;
E, admito: “a poesia é algo belo, ao mesmo tempo íntimo e alheio”. 

E pesando sua ausência e refletindo seu valor percebo:   
"amor é fogo que arde sem se ver", e não queima;
É fome e é banquete; 

E que essa saudade é falta do que se tem, 
Não do que se perdeu; 
Saudade é falta da presença que, 
Embora distante do seu riso, do seu brilho...
O, você, amor se faz presente não quando mais quero, e sim, 
Sempre e quando mais preciso.
É isso.

E enquanto te espero...

Um pouco de Camões:

"Amor é fogo que arde sem se ver

Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;

É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?"
 
Luís de Camões

A maior flor do mundo

Uma história poética

quinta-feira, 4 de julho de 2013

O amor que te ofereço

Quero oferecer-te o amor que realmente sinto:                                                                              cuidadoso, inocente e risonho;                                                                                                         O amor que juntos sonhamos.                                                                                                                               Não te darei o amor banal e egoísta, que se inventa:                                                                                         de ciúmes e opressão, que mal se aguenta;                                                                                            Quero oferecer-te o amor que mereces: aureolado de sonhos.

Não quero oferece-te o amor que supomos:                                                                                  bonito e vaidoso, cheio de detalhes que o torne perfeito;                                                                              Quero oferecer-te o amor que criamos:                                                                                               risonho e cheio de agrados, que livre se doa e se é aceito.

Quero oferecer-te um amor que por si só se sustente, sabe:                                                               aquele amor que por ser frágil, delicado, faz-se tão fortemente intransponível,                                                    superior aos males que ameace agente.

Quero oferecer-te o amor que sinto:                                                                                                   esse desejo quente,                                                                                                                                 o amor que só quem ama verdadeiramente sabe o quanto o sente.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Minha missão, meu desejo

Deixar o meu rastro pela terra, amparado pelos recursos da lua,  e declarar guerra aos homens das guerras, homens de lua, que desconhecem a divina poesia que é a vida; onde o homem é o verso que se harmoniza à misteriosas rimas.
Essa é a minha missão, minha poesia; faça a tua.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

A maldição do inverno

Itapevi, primeiro de inverno de 2013;
A maldição se repete:
A solidão se apresenta a mim, através de uma mensagem de texto, SMS.
Sinto um arrepio percorrer meu corpo inteiro.
É o primeiro presságio; o primeiro sintoma de abandono.

O anjo, amante-amigo, se transforma em fera indomável, enfurecida.
Ela foi se afastando aos poucos, de mansinho, como mãe desmamando seu filho, e se rebelou.
Sabe da minha dependência dos seus carinhos.
Sabe que na altitude a que fui levado pelo amor não saberei como prosseguir e não terei como me estabilizar.
E em queda livre não restara homem, muito menos forças pra recomeçar no amor.
Agora me cobra uma decisão e atitudes que não posso tomar.
As reivindicações são justas, porém não depende somente da minha vontade concedê-la. É o fim.

Eu tinha esperança de que ela repensasse. Eu a propus que reconsiderasse.
Eu estipulei um tempo pra que ela pensasse. Mas, pelo jeito, já era caso pensado.
Acho que o maior erro do homem é se precipitar ao dizer que ama; igualmente, ou erro maior talvez seja tardar tanto e não dizer "Eu te amo!".

Ficou o beijo; a lembrança do calor latente do sexo; a palavra amiga; os sonhos...
Até o último instante do dia eu esperei que ela voltasse... e ainda espero.
Então poderia dizer: Eu te amo! E num momento de êxtase ela também diga: Você é o meu homem.
Mas, por enquanto, tenho a maldição do inverno: a solidão.

É o fim.

domingo, 23 de junho de 2013

Arnaldo Jabor pede desculpas, mas quem o ouviu?

O comentário absurdo:http://globotv.globo.com/rede-globo/jornal-da-globo/v/arnaldo-jabor-fala-sobre-onda-de-protestos-contra-aumento-nas-tarifas-de-onibus/2631566/

A língua girava no céu da boca


A língua girava no céu da boca. Girava! Eram duas bocas, no céu único.

O sexo desprendera-se de sua fundação, errante imprimia-nos seus traços de cobre. Eu, ela, elaeu.

Os dois nos movíamos possuídos, trespassados, eleu. A posse não resultava de ação e doação, nem nos somava. Consumia-nos em piscina de aniquilamento. Soltos, fálus e vulva no espaço cristalino, vulva e fálus em fogo, em núpcia, emancipados de nós.

A custo nossos corpos, içados do gelatinoso jazigo, se restituíram à consciência. O sexo reintegrou-se. A vida repontou: a vida menor.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Protesto


Ativistas do bem, Movimento Humanistas, Democrático, Meio Ambiente, Passe Livre,... Todos os manifestantes que reivindicam por direito e justiça, bem-vindos. 

Luta interminável! É preciso ter espírito de guerreiro gigante. E como se tornar um gigante lutador? 

Somos forjados a isso no árduo exercício da sobrevivência. Invejo esses manifestantes que se expõem aos perigos à margem dessa democracia enganosa, protetora do capitalismo. Invejo os militantes políticos que se vestem da causa partidária, em defesa de utópicas ideologias que ocultam em si os verdadeiros ideais dos dirigentes que, na sua grande maioria, não tem escrúpulos. Esses manifestantes são soldados de linha de frente, levados a abrir caminho, confundir o opositor, distrair a grande massa e lutarem contra fantasmas até a morte... Muitas vezes lutamos contra nós mesmos. Um e outro podem se tornar mártir, no máximo. Mas tenho uma pontinha de inveja, confesso. Invejo-os, e sou a favor de todo e qualquer tipo de manifestação por justiça social. 

Uma atitude em prol de um objetivo, por mais simples que seja, é digna de respeito. Mas em toda atitude corre-se o risco da decepção. Porém nenhum prazer se iguala à satisfação de se sentir vivo, útil e notado. Quisera eu ter uma atitude revolucionária. Quisera preocupar o senado, cassar os bens aos corruptos, ameaçar os gringos exploradores da mão de obra barata que alimentam a miséria que engorda seus lucros. Ah, quisera! Queria muito soltar meu grito. Quem me dera trinta segundos; pelo menos para contestar Arnaldo Jabor que, diante de milhões de telespectadores, menosprezou nossa sensibilidade. Outro dia, não consegui me atentar ao fim do Jornal da Globo depois que tal comentarista vomitou seu desprezo na cara dos brasileiros, chamando-os vândalos, arruaceiros de classe média, que faziam vandalismo por míseros vinte centavos. Inacreditável tamanha ignorância e falta de competência! Incapaz de ver além do gesto. Mostrou-nos, em poucos segundos, como nós brasileiros legítimos somos ignorados. Naquele momento o escritor, cineasta, e principalmente o jornalista-comentarista, manchou sua imagem como homem. Fiquei indignado. Perdi um ídolo. 

Temos que nos tornar gigantes e sacudir o mundo. Como? 
Formando um corpo de milhões de cérebros com o olhar focado num só horizonte: o futuro do Brasil e dos brasileiros.

Mas atenção! sem violência. Denunciem os vândalos e se afastem deles.
Ah, um detalhe importante: a voz precisa de um corpo, portanto, um grito político precisa de um corpo político. Sejamos flexíveis e racionais e aceitemos o apoio dos partidos, das organizações religiosas e de todas as classes sociais. Isso será fundamental para tirarmos a máscara do senado e do congresso. No ninho da serpente se abriga a corrupção. Nosso campo é a rua e nossa arma é a união. 

Vamos dar um vassoura para a presidenta?
Só assim um presidente será capaz de governar.

domingo, 16 de junho de 2013

A alma humana é porca como um ânus

A alma humana é porca como um ânus
E a Vantagem dos caralhos pesa em muitas imaginações.
Meu coração desgosta-se de tudo com uma náusea do estômago.
A Távola Redonda foi vendida a peso,
E a biografia do Rei Artur, um galante escreveu-a.
Mas a sucata da cavalaria ainda reina nessas almas, como um perfil distante.
Está frio.
Ponho sobre os ombros o capote que me lembra um xaile —
O xaile que minha tia me punha aos ombros na infância.
Mas os ombros da minha infância sumiram-se antes para dentro dos meus ombros.
E o meu coração da infância sumiu-se antes para dentro do meu coração.
Sim, está frio...
Está frio em tudo que sou, está frio...
Minhas próprias ideias têm frio, como gente velha...
E o frio que eu tenho das minhas ideias terem frio é mais frio do que elas.
Engelho o capote à minha volta...
O Universo da gente... a gente... as pessoas todas!...
A multiplicidade da humanidade misturada
Sim, aquilo a que chamam a vida, como se só houvesse outros e estrelas...
Sim, a vida...
Meus ombros descaem tanto que o capote resvala...
Querem comentário melhor? Puxo-me para cima o capote.
Ah, parte a cara à vida!
Levanta-te com estrondo no sossego de ti!

Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Grato

(Em homenagem a Luciana, meu amor)


Poetray

Grato! Por enxugar-me o pranto com o calor deste sorriso
e amenizar minha dor com este olhar de ternura e brilho 
cujos raios minh'alma aquecem; 
pois viver é isso, 
e muitas vezes, isso, agente esquece.

Vaguei pela escuridão sem nenhuma esperança 
_ e sem vontade de tê-las_, 
confesso: vagueei até encontrar-te; 
e ao vê-la, fui resgatado e liberto 
e novamente posto, deste lado oposto, 
sob tua face _ meu céu de estrelas.

Grato! Pela vida que se ilumina. 
Inda dói, perturba certa angustia no peito, 
_ mas nenhum receio que oprima _, 
é que o passado nunca é desfeito 
e cicatrizes são lembranças, essas não tem jeito, 
só o tempo cura certos males e seus efeitos.

Doce, doce, doce!... 
Água e fonte, perfume do campo 
brisa;
minha flor...
Grato, por enxugar meu pranto!


Itapevi-SP 12/06/13 




domingo, 9 de junho de 2013

Efeito dominó

Poetray

Sinto-me meio zonzo esta manhã. Acho que são os efeitos das notícias; todas as manchetes dos jornais televisivos hoje são desanimadoras e intragáveis. Não as citarei, pois são corriqueiras; exceto a vitória do Brasil sobre a França. Um placar expressivo.

Meu café da manhã tem sabor de chocolate, embora seja muito amargo o valor. O leite, o pão, o achocolatado dão à vida um belo sabor. Mas falta sucrílhos _ a marca que a criançada adora _, porque custam os olhos da cara. Queijo e frutas na mesa, nem se fala, já se tornou coisa rara.

Eu brinco com a colherzinha enquanto misturo o pó ao leite e penso na economia. O barulho irrita a mulher. E não, eu não sou economista nem tenho economias; o contrário é o que é.

A cabeça dói. Falta-me estômago para as injustiças. Ainda não inventaram “Engov” para alterar certa natureza psíquica.

Eu pago impostos sobre tudo que consumo. Pago pela escravidão, produtos e insumos. Eu pago para ser brasileiro. Pago pelo que fui e o que somos...


Chego à janela porque ouço cantar o bem-te-vi. “Cerração baixa, sol que racha”, o dia mostra a face de luz. Eu calço o tênis, me benzo, tranco a porta e caminho para a cruz.

Sombras

Sabe esses dias de inverno incrivelmente bonitos?
Desde manhãzinha o sol brilha. Poucos blocos de nuvens alvas dispersas sob o manto azul...
E aquela expectativa de ver "Ela"; aquela pessoa especial que é ainda mais bela que todo o esplêndido conjunto de encantos da natureza que adorna o dia. Mas no decorrer das horas, embora o dia permaneça lindo, vai dominando agente aquela sensação de que não vai acabar bem, algo ruim vai acontecer.

Aconteceu. Seis de junho, hoje, ano 2013, foi assim: Vivi a magia do sonho algumas horas do dia, e findou com a negritude da realidade envolvente da noite.
Mas, na verdade, há três dias já vinha sentindo um crescente pressentimento de ameaça de descontentamento e, nesse dia, eu sabia que seria o pico, o dia fatal da decepção.

Quando já se está esperando uma decepção ela não falha e sempre vem acompanhada. A tristeza é visita que não se atrasa, se é convidada comparece. Nunca é tão grave por já não ser total surpresa, absolutamente; mas parece que a vida ironicamente se reparte para lançar sobre sua cabeça uma chuva de descontentamento, em pancadas, de tempo em tempo, todo o dia, intercalando a cada despertar de um devaneio. Sim, quando se está amando se devaneia sempre, apesar das chuvas, apesar do tempo.

Pois bem, no fim do dia acabou o mistério. O tempo se estabilizou sombrio, e, dentro de mim, tempestuoso. Eu a vi com outro. Mas a natureza é sábia ao reger nossas vidas, tudo se renova independente das condições do tempo, dos pressentimentos e fantasias. Vale. Um novo amanhecer é sempre um desafio e recompensa.

sábado, 25 de maio de 2013

As vezes que chorei

As vezes que chorei...
Já chorei tanto!
Já chorei sem motivo.
Já chorei de dor, chorei de alívio.

Já chorei por hipocrisia, chorei feito bobo de tanta alegria.
Já chorei nos sonhos, nos pesadelos; 
Chorei por conta do dente, desembaraçando os cabelos...

Chorei muito. 
Chorei com medo. Certa vez chorei à-toa: chorei com medo de chorar. 
Chorei por uma pessoa. 
Às vezes amando chorei com medo de amar.

Já chorei em vão (não se deve chorar por perdão) 
Chorei sem graça; Chorei de pirraça. 
Eu também já fui criança neném, e chorei pedindo peito; 
Chorando, no afã do calor do leito.

Já chorei em demasia. 
E quem nunca já chorou de rir? 
Chorei de encantamento ao ver uma criança dormir.

Meu choro é riso sincero. É flagelo. 
É construção, congregação, dedo e martelo. 
Mas nenhum choro é tão puro, tão sincero, quanto a solidão do grito do quero-quero.

Chorei na despedida (aquele adeus...). 
Chorei tanto, tanto... pensei que ia secar o pranto. 
Chorei no reencontro. Chorei até passar do ponto. 
Chorei!

Um dia chorei vendo o noticiário; 
N'outro chorei ao abrir o armário.

Chorei pela África; tão negra! Tão singela! 
Ah! chorei orando por Nelson Mandela. 
Chorei tanto e me acostumei. 
Aquele povo... não sei; será que ainda os amo ou um dia os amei?... 
Acho que de tanto chorar me desumanizei-me.

Chorei, chorei..., por quê, já não sei.
Chorei no novo emprego, mas chorei por apego.

Chorei no parabéns pra você E chorei no velório do inimigo.
Chorei contigo.

Chorei lendo Drummond que me fez compreender Pessoa, 
e uma lágrima rolou ao ritmo do jazz de Villas Boas.

Chorei ontem e agora; mas qualquer hora é hora.
A vida é um palco e um divã. Quem me dera! 
Quisera mesmo, nesse palco, poder chorar amanhã.

Chorei a cada nascimento de um filho; (aí chorei por abrigo). 
Chorei por esporte. Pelo povo do norte. 
Chorei por angustia, inconsolado, pela morte. 
Chorei até perder o brilho. 
Chorei por alguém num asilo.
Chorei por ela.

Chorei no fim da novela
Chorei calado.
Chorei pelo leite derramado.
Chorei sem entusiasmo.
Chorei durante um orgasmo (em silêncio todos choram por isso). Chorar é para os olhos uma espécie de compromisso.

Chorei ao ver um bicho abatido. 
Chorei de bronca com Deus e de mal comigo. 
Chorei debruçado num ombro. 
Chorei escondido nos escombros. 
Chorei nas entrelinhas de poemas, por equilíbrio,
no meu livro.

Na ficção chorei.
Chorei minha autobiografia.
Ia me esquecendo: chorei ao ver o mar; E chorei olhando estrelas ao luar. Um dia chorei por engano, depois "deschorei". "errar é humano!"
Não, nunca chorei de ódio, chorei o óbvio; chorei pela raiva ter me vencido. 
 Chorei perdido.

Chorei no natal, na páscoa, lava-pés, via-crúcis, ressurreição... Ah, Deus! 
Quanto ainda por chorar! agora que tenho consciência das minhas fraquezas! Mas tudo bem.
Beleza!

domingo, 12 de maio de 2013

Para Sempre


Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.

Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
- mistério profundo -
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.

Carlos Drummond de Andrade )

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