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segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Uma mulher


E outra vez me vem o jovem petulante me arranca a máscara e me atira, na cara, a realidade.
Não posso repreendê-lo. Não assim, diante da vida que se renova e me sorri.
_ Não é isso que sonhas, Rai, nas horas mortas?
Seja esse o trem que o atropele ou o mar no qual em pensamento tantas vezes te afogas.
Vai! Se atire desse penhasco e descubras o que existe além do escuro desse tenebroso abismo. Afinal, ela é apenas uma mulher! Humanos sentem as mesmas dores, o que muda são caras e bocas; máscaras. Todos se maquilam para disfarçar uma tristeza.
            Ela tem olhos de rubi, penetram minh’alma. Lindos! Mas há certa tristeza perturbadora; um vazio iluminado por uma ternura sem cores. Como um jardim sem flores no outono, só folhas se desprendem, e o vento se vai sem o melhor perfume...
Ah, essa mania de ver um traço de tristeza em toda beleza! O belo só é belo pelo enigma do seu abstrato. Mas posso ver uma alma inquieta pedindo socorro em meio àquele esplendor enigmático. Será que ama? Será que é amada?
            A hora perigosa tornar-se-á mais suportável tendo um sonho a sonhar, um abismo desconhecido entre o nada e o improvável. Talvez não seja intransponível; Talvez, quem sabe, um labirinto de flores e exótico perfume. Seja como for, faça-o sua utopia e se entregue novamente ao gozo de viver.
            Mova-se, vamos, ela não te vê! O minério é imperceptível encoberto pela poeira ressequida; uma estrela não reluz se não vencer o espaço escuro, o sol só se põe pela vaidade de se ressurgir;  Portanto vá, agora, e exiba-se como raio e trovão. E se essa tal eletricidade que pressentes seja a energia do amor...
Feche os olhos para os conceitos, pois, só o amor é real, o resto é mito; bem sabes.
Nem pense nisso! Ela nem te conhece; e tu mal conheces a ti mesmo. Talvez ela o queira; talvez seja ela... Ela. E tu de sapo torna-se príncipe.
Bom, nem tanto; mas um duende aventureiro sobrevivente na terra dos esquecidos.
Deus meu, como ela é linda!...




Passo horas contemplando


Passo horas contemplando
De vez em quando um sorriso
Que eleva ao máximo meu deslumbre
Ela é surpreendentemente perfeita.
                Um olhar para apaziguar meu coração
Na hora certa em que já não consigo controlar a pulsação. Mas
Estúpido, tímido e livre; não sei disfarçar o desejo.
Ela percebe não demonstra saber.
                Eu procuro no corpo sensual, e de postura exemplar, sinais de desejo;
Nada, nem um gesto revelador, insinuante; exceto um perfume de mulher que meu cérebro insiste em interpretar como aroma sexual.
                A vida já não é uma única sonoridade,
Os tambores soam, e uma orquestra instrumental executa todos os tons entro de mim.
                Passo horas contemplando..., ela, regente de mim.

domingo, 30 de dezembro de 2012

Como você pensa?


Talvez, e só talvez, o raciocínio inadequado e o argumento inconveniente assustem.
Assustem, e apenas assustem, àqueles que renegam meu ponto de vista. Sendo, pois, apenas uma opinião, oriunda de um apedeuto, não há motivos para alarde. 
Independente de como pensamos vivemos ou cumprimos o tempo de nossa estadia nesse plano. 
A felicidade é uma ilusão e toda ilusão é verdade única que tem poderes de manter em movimento a ciranda. O que impede o a evolução do homem são as leis, a ética e a moral, que controlam uma liberdade que traz efeitos fatídicos. O homem criou um conceito errôneo de progresso e cria link de sinônimos para camuflar tanta ignorância. Falta-nos humildade para correção. O resultado de toda repressão é a dor.
Versos desideratum!
 
Não precisa entender, só pense; no reino da hipocrisia pensar já é um ousado desafio.

sábado, 29 de dezembro de 2012

Curtiu? click!


Tudo é passageiro.
Click com os olhos
Click com a boca
Click com os pés
Click com a imaginação...

Click com um flerte
Click com um beijo
Click com um movimento, um passo, um gesto, uma atitude.
Sonhe! Ame! Tudo é passageiro, mas neste instante tudo é real.

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Certa hora


Certa hora da tarde cada instante é decisivo. O suspiro de meia compensação é irrelevante, nada acrescenta, não obstante, reduz. A verdade é absoluta.
E a ciranda continua a girar...
O semeador escolhera suas sementes. Há sonhos, flores, há frutos, brisas...
Mas à sombra se descansa na dor.
Também há lamentos por tantas perdas e doces reminiscência.  Mas como viver é vestir-se de otimismo e entregar-se às esperanças, sigamos assim, ignorados e esquecendo; recordando e aprendendo.
Os erros quando avaliados são como vacina; os acertos quando monitorados e estudados se aperfeiçoam e tornam-se hábitos.  Conquistas são curas.
Certa hora da tarde crescem os filhos. No jardim se lê as estações. O mundo continua vulgar e imperfeito, contudo é perfeito porque se pensa mais, se reclama menos; se faz pouco, e muito de tudo, pouco a pouco de ajusta.
Marias, Helenas, Lucianas...
O café amargo já não parece tão ruim. Engolem-se pílulas sem água. Papo de velho torna-se valiosos. E o espelho!...
O espelho nos revela traços de ancião. Livros grossos, versos ou prosa, sem figuras _tanto faz!_, devoramos. Em tudo se lê a vida.
Ah, o coração! O coração acorda ou adormece. O crepúsculo o envolve. O senhor da luz ajeita o manto.
Certas horas da tarde... Luz.

domingo, 23 de dezembro de 2012

Resíduos - Drummond de Andrade


De tudo ficou um pouco.
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco.

Ficou um pouco de luz
captada no chapéu.
Nos olhos do rufião
de ternura ficou um pouco
(muito pouco).

Pouco ficou deste pó
de que teu branco sapato
se cobriu. Ficaram poucas
roupas, poucos véus rotos
pouco, pouco, muito pouco.

Mas de tudo fica um pouco.
Da ponte bombardeada,
de duas folhas de grama,
do maço? vazio ? de cigarros, ficou um pouco.

Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.

Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.

Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficaria
um pouco de mim? no trem
que leva ao norte, no barco,
nos anúncios de jornal,
um pouco de mim em Londres,
um pouco de mim algures?
na consoante?
no poço?

Um pouco fica oscilando
na embocadura dos rios
e os peixes não o evitam,
um pouco: não está nos livros.

De tudo fica um pouco.
Não muito: de uma torneira
pinga esta gota absurda,
meio sal e meio álcool,
salta esta perna de rã,
este vidro de relógio
partido em mil esperanças,
este pescoço de cisne,
este segredo infantil...

De tudo ficou um pouco:
de mim; de ti; de Abelardo.
Cabelo na minha manga,
de tudo ficou um pouco;
vento nas orelhas minhas,
simplório arroto, gemido
de víscera inconformada,
e minúsculos artefatos:
campânula, alvéolo, cápsula
de revólver... de aspirina.
De tudo ficou um pouco.

E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.

Papai Noel às Avessas



Papai Noel entrou pela porta dos fundos
(no Brasil as chaminés não são praticáveis),
entrou cauteloso que nem marido depois da farra.
Tateando na escuridão torceu o comutador
e a eletricidade bateu nas coisas resignadas,
coisas que continuavam coisas no mistério do Natal.
Papai Noel explorou a cozinha com olhos espertos,
achou um queijo e comeu.

Depois tirou do bolso um cigarro que não quis acender.
Teve medo talvez de pegar fogo nas barbas postiças
(no Brasil os Papai-Noéis são todos de cara raspada)
e avançou pelo corredor branco de luar.
Aquele quarto é o das crianças
Papai  entrou compenetrado.

Os meninos dormiam sonhando outros natais muito mais lindos
mas os sapatos deles estavam cheinhos de brinquedos
soldados mulheres elefantes navios
e um presidente de república de celulóide.

Papai Noel agachou-se e recolheu aquilo tudo
no interminável lenço vermelho de alcobaça.
Fez a trouxa e deu o nó, mas apertou tanto
que lá dentro mulheres elefantes soldados presidente brigavam por causa do  aperto.

Os pequenos continuavam dormindo.
Longe um galo comunicou o nascimento de Cristo.
Papai Noel voltou de manso para a cozinha,
apagou a luz, saiu pela porta dos fundos.

Na horta, o luar de Natal abençoava os legumes.


Carlos Drummond de Andrade

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