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quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Do livro "Um Minuto, Por Favor!"



Uma manhã destas, indo da periferia para o centro de São Paulo, encontrei no trem da linha oito Diamante _ Itapevi/Barra Funda _ um rapaz aqui do bairro, que eu conheço só de vista, de idas e vindas bairro adentro, e de funk. Ele parece barulhento e intimidador. Cumprimentou-me com um gesto “shaka” ou “saudação bellamy”, não sei bem; sentou-se no degrau de divisão dos vagões, lugar onde não me sentei devido a um pequeno problema na minha nádega. Perto de mim, falou do Corinthians e dos candidatos à prefeitura, e acabou cantarolando um funk que faz apologia política em meio a um monte de palavrões. Ele é um usuário costumeiro daquele horário naquele vagão. A viagem não era curta, e os versos pode ser que não fossem inteiramente maus, não fosse pelos erros absurdos de português e as palavras de baixo calão, visto que os adjetivos eram verdadeiros. Todos os dias ele fazia isso: funk e bazófias.
Em alguns momentos pensei em mudar de vagão, mas não é fácil sair do trem quando tem uma multidão querendo entrar, já que, nos horários de pico o trem parte e a plataforma permanece cheia de passageiros nervosos que não conseguiram embarcar. Sucedeu, porém, que, como eu estava cansado, apertei os olhos três ou quatro vezes; tanto bastou para que ele fizesse uma piada e interrompendo minha leitura enaltecesse, em alto e bom som, os versos do seu ídolo. Depois, fazendo uma careta, demonstrou repulsa pelo livro grosso eu lia, ou talvez pelo meu jeito. A saber, meus hábitos no trem eram escrever, a leitura, cochilar ou silêncio, apenas.
— Bons versos, disse eu acordando receoso.
_ Ah! Sei que você não curte; você curte é MPB. Coisa brega! _ e riu com desdém.
_ Depende do momento. Mas tem de ter qualidade.
— Tá, continua lendo, não quero atrapalhar sua leitura, murmurou ele rindo.
— Tudo bem.
Vi- lhe fazer, com a boca, um gesto de percussão para cantarolar outra vez, mas não passou do gesto e pequenos ruídos de duas notas sonoras espremidas entre os dentes; sentiu-se meio acuado pelos olhares. Eu, ao fechar os olhos novamente, só ouvia ruídos, as vozes abafadas, tudo ficando distante, o corpo esmorecendo até que o livro caiu das minhas mãos. Houve um ligeiro silêncio; depois gargalhada, e descontração, muitos cumprimentos, fofocas, lamentos e vanglórias. “Que bom! _ pensei,_ pela manhã, um pequeno incidente sempre proporciona um diálogo, aproxima as pessoas; isso quando não rola um quebra-pau.”
Naquele dia senti mal-estar o dia inteiro. Cochilei durante as aulas e no ônibus em todo o percurso para o trabalho.
No dia seguinte o rapaz entrou e logo foi olhando para todas as faces, procurando por mim: _ Cadê o cara do livro?_, e se sentando dizia que me conhecia, que era meu amigo, eu era poeta, bebia todas, _Ufa! E vivia nos bares antes de voltar a estudar. Dizia coisas, assim, desagradáveis _ meias verdades _, que acabaram apelidando-me poeta entre outras pilhérias. Todos os passageiros, exceto eu, aderiram; e até admitiram gostar de pessoas com tais hábitos recalcados, jeito calado e inofensivo, e que gostariam de se acostumar à prática da leitura, a poetização ou outros semelhantes.
Deram curso a tais atributos, que afinal tornou a viagem mais agradável. Nem por isso consegui me descontrair. Sou mal-humorado, principalmente pela manhã. Quando acordo já começo a cantar silenciosamente, exagero debaixo do chuveiro e crio versos, rezo ou converso comigo mesmo o tempo todo, só para controlar meus nervos. E até esse diálogo íntimo me aborrece. Agora a minha mania é só fazer textos críticos, mas eles se desenvolvem deformados pelos meus traumas pessoais. O emprego e o casamento são as principais causas. Os agravantes me transformava noutra pessoa que às vezes me assustava. Esse problema me fez perceber que somos de natureza mutante. De manhã se é um e de tarde outro. Agente se acostuma, embora não se aceite; ou vice-versa. Após algum tempo naquele novo trabalho eu estava me transformando aos poucos nesse sujeito inconveniente, nervoso. Será que eu era mesmo um membro importante da “Família Teleperformance”? Sentia-me útil à empresa, prestando serviços para o provedor UOL, o maior provedor de serviços online do Brasil; sentia-me útil aos clientes, mas algo estava me corroendo...
Contei a meu médico _ meu médico é um jeito mentiroso de dizer, perdoe-me. Contei aos médicos do convênio sobre essa irritação que me tirava o sono à noite e me fazia sentir sono todo o dia, e até dormiria de pé, andando, caso ousasse fechar os olhos por alguns segundos.
Primeiro consultei o clínico geral, esse me encaminhou para o gastroenterologista que, por sua vez, me recomendou um dermatologista. Os profissionais mais dedicados conseguem se aprofundar nos sintomas, que mesmo agente ignorara, e chegam a um diagnóstico mais provável. Quando é assim a verdade sai. Juntando tudo, foram unânimes no diagnóstico: “stress; e pode levá-lo a uma parada cardíaca a qualquer momento.” Acordaram.
_ Saía urgente dessa área de telemarketing; conheço pessoas que estão jogadas por ai por conta desse tipo de serviço, alertou-me o médico da vez.
_ Não é pra tanto, pensei.
_ Você vai me trazer esses exames _ continuou, enquanto prescrevia a receita e preenchia a guia _ só me apareça aqui com tudo em mãos, e traga essa receita com o carimbo da farmácia.
_ Tão grave assim, doutor?
_ Gravíssimo! É pra assustar mesmo. _ ergueu os olhos e me entregou os papéis. _ Estou de afastando por dois dias, descansa e pensa se seu trabalho vale mais do que sua vida.

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