Meus livros

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sábado, 24 de novembro de 2012

Ana, Flor Menina


Espere, por favor! Espere.
Se cheguei tarde ou cedo, não sei.

Mas estou aqui e vejo
O teu olhar, desejo,
Riso, que também é beijo,
A beijar-me você
Nos meus lábios sedentos.
_ Assim que a vi a amei _
Se cedo ou tarde, não sei.

Coroai-me,
Flor menina,
Coroai-me.
Enquanto a sós, Ana, coroai-me.

Bem Social


O bem que você me faz

Ah, sol! Assim você acaba por fazer de mim um poeta... ou no mínimo, um bom cidadão.

Agora vivo cheio de cuidados:
Faço a barba regularmente
Escolho bem as roupas
Cuido da saúde
Cuido da palavra
Cuido do caráter
Cuido do espírito;
Quero ser o homem que você merece:
O homem perfeito!
Caso não me queira,
A sociedade ganha,
Um novo homem; eu.

Alento ao desalento


_ Um riso para o meu pranto!

Tenho os passos firmes
Agora que estou agarrado a tuas mãos invisíveis.
Confio nos teus atos seguros;
Confio na tua atenção para comigo.
No teu cuidado de Pai
No teu capricho de mãe
No teu zelo de amigo.


Hoje tenho os s passos firmes

Porque sei que não estou só;

E que jamais estarei, 
Pois sei que até o próprio chão
Criaste para amparar-me
E as pedras dão sentido ao meu caminho                                                                                     E brotam flores por onde passei.


segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Velhice iminente


“Toda minha vida não lutei por ninguém, pois ninguém valia minha luta nem meus sacrifícios; esqueci todos os sentidos no amor.
O que fiz, o fiz por amor a alguém ou a alguma coisa.
Não é egoísmo, é sensatez; o próximo é uma extensão de mim.
Amei pessoas, e me apaixonei;
Amei a natureza e a arte, não os compreendi, embora eu viva interrogando a vida que se esvai.
A vida é como ervas que se apodrentam; como águas escapam pelas mãos e deixa como lembranças sua forte imagem e sabor indizível.
Eu vivi e estou pronto para partir, levado pela brisa que compõe e consome;
Mas que se prolongue, por um tempo mais, bem mais, esta estadia.”


(Velhice iminente, trecho de um poema do próprio autor).

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

A Despedida

Perdi-me entre as flores.
_ Todas as flores são lindas
Quando destinadas com amor.

Só não queria calêndulas
Não por lhes faltar beleza
Mas por conta de uma lembrança triste.

Por fim, um arranjo de rosas.
_ As rosas são insuperáveis:
É caminho para a conquista
Seduzem às núpcias
Celebram o casamento
Ornam e perfumam partos e nascimentos.
E acompanha vida afora
Os tropeços da velhice
Florescem ainda sobre o último repouso
Embalando ao sono a velha meninice.

Teu corpo era um jardim
_ verde, vermelho e rosa... _
E teu sorriso...!
Ai de mim!

Ele veio buscá-la numa carruagem verde:
Cavalos possantes e a guarda real
Duas damas de companhia
Dois símbolos de fertilidade.

Dois servos ficaram olhando...
_ Dois corações abraçando uma saudade!

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Do livro "Um Minuto, Por Favor!"



Uma manhã destas, indo da periferia para o centro de São Paulo, encontrei no trem da linha oito Diamante _ Itapevi/Barra Funda _ um rapaz aqui do bairro, que eu conheço só de vista, de idas e vindas bairro adentro, e de funk. Ele parece barulhento e intimidador. Cumprimentou-me com um gesto “shaka” ou “saudação bellamy”, não sei bem; sentou-se no degrau de divisão dos vagões, lugar onde não me sentei devido a um pequeno problema na minha nádega. Perto de mim, falou do Corinthians e dos candidatos à prefeitura, e acabou cantarolando um funk que faz apologia política em meio a um monte de palavrões. Ele é um usuário costumeiro daquele horário naquele vagão. A viagem não era curta, e os versos pode ser que não fossem inteiramente maus, não fosse pelos erros absurdos de português e as palavras de baixo calão, visto que os adjetivos eram verdadeiros. Todos os dias ele fazia isso: funk e bazófias.
Em alguns momentos pensei em mudar de vagão, mas não é fácil sair do trem quando tem uma multidão querendo entrar, já que, nos horários de pico o trem parte e a plataforma permanece cheia de passageiros nervosos que não conseguiram embarcar. Sucedeu, porém, que, como eu estava cansado, apertei os olhos três ou quatro vezes; tanto bastou para que ele fizesse uma piada e interrompendo minha leitura enaltecesse, em alto e bom som, os versos do seu ídolo. Depois, fazendo uma careta, demonstrou repulsa pelo livro grosso eu lia, ou talvez pelo meu jeito. A saber, meus hábitos no trem eram escrever, a leitura, cochilar ou silêncio, apenas.
— Bons versos, disse eu acordando receoso.
_ Ah! Sei que você não curte; você curte é MPB. Coisa brega! _ e riu com desdém.
_ Depende do momento. Mas tem de ter qualidade.
— Tá, continua lendo, não quero atrapalhar sua leitura, murmurou ele rindo.
— Tudo bem.
Vi- lhe fazer, com a boca, um gesto de percussão para cantarolar outra vez, mas não passou do gesto e pequenos ruídos de duas notas sonoras espremidas entre os dentes; sentiu-se meio acuado pelos olhares. Eu, ao fechar os olhos novamente, só ouvia ruídos, as vozes abafadas, tudo ficando distante, o corpo esmorecendo até que o livro caiu das minhas mãos. Houve um ligeiro silêncio; depois gargalhada, e descontração, muitos cumprimentos, fofocas, lamentos e vanglórias. “Que bom! _ pensei,_ pela manhã, um pequeno incidente sempre proporciona um diálogo, aproxima as pessoas; isso quando não rola um quebra-pau.”
Naquele dia senti mal-estar o dia inteiro. Cochilei durante as aulas e no ônibus em todo o percurso para o trabalho.
No dia seguinte o rapaz entrou e logo foi olhando para todas as faces, procurando por mim: _ Cadê o cara do livro?_, e se sentando dizia que me conhecia, que era meu amigo, eu era poeta, bebia todas, _Ufa! E vivia nos bares antes de voltar a estudar. Dizia coisas, assim, desagradáveis _ meias verdades _, que acabaram apelidando-me poeta entre outras pilhérias. Todos os passageiros, exceto eu, aderiram; e até admitiram gostar de pessoas com tais hábitos recalcados, jeito calado e inofensivo, e que gostariam de se acostumar à prática da leitura, a poetização ou outros semelhantes.
Deram curso a tais atributos, que afinal tornou a viagem mais agradável. Nem por isso consegui me descontrair. Sou mal-humorado, principalmente pela manhã. Quando acordo já começo a cantar silenciosamente, exagero debaixo do chuveiro e crio versos, rezo ou converso comigo mesmo o tempo todo, só para controlar meus nervos. E até esse diálogo íntimo me aborrece. Agora a minha mania é só fazer textos críticos, mas eles se desenvolvem deformados pelos meus traumas pessoais. O emprego e o casamento são as principais causas. Os agravantes me transformava noutra pessoa que às vezes me assustava. Esse problema me fez perceber que somos de natureza mutante. De manhã se é um e de tarde outro. Agente se acostuma, embora não se aceite; ou vice-versa. Após algum tempo naquele novo trabalho eu estava me transformando aos poucos nesse sujeito inconveniente, nervoso. Será que eu era mesmo um membro importante da “Família Teleperformance”? Sentia-me útil à empresa, prestando serviços para o provedor UOL, o maior provedor de serviços online do Brasil; sentia-me útil aos clientes, mas algo estava me corroendo...
Contei a meu médico _ meu médico é um jeito mentiroso de dizer, perdoe-me. Contei aos médicos do convênio sobre essa irritação que me tirava o sono à noite e me fazia sentir sono todo o dia, e até dormiria de pé, andando, caso ousasse fechar os olhos por alguns segundos.
Primeiro consultei o clínico geral, esse me encaminhou para o gastroenterologista que, por sua vez, me recomendou um dermatologista. Os profissionais mais dedicados conseguem se aprofundar nos sintomas, que mesmo agente ignorara, e chegam a um diagnóstico mais provável. Quando é assim a verdade sai. Juntando tudo, foram unânimes no diagnóstico: “stress; e pode levá-lo a uma parada cardíaca a qualquer momento.” Acordaram.
_ Saía urgente dessa área de telemarketing; conheço pessoas que estão jogadas por ai por conta desse tipo de serviço, alertou-me o médico da vez.
_ Não é pra tanto, pensei.
_ Você vai me trazer esses exames _ continuou, enquanto prescrevia a receita e preenchia a guia _ só me apareça aqui com tudo em mãos, e traga essa receita com o carimbo da farmácia.
_ Tão grave assim, doutor?
_ Gravíssimo! É pra assustar mesmo. _ ergueu os olhos e me entregou os papéis. _ Estou de afastando por dois dias, descansa e pensa se seu trabalho vale mais do que sua vida.

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