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sábado, 25 de maio de 2019

Primeiras notas

Sexta-feira.
O solo é Bach: Selon.
Lá fora orquestra-se nas folhas de bananeira.
Notas suaves.
Café, penso.

E lá vem ela, de dentro de mim.
Ascende.

Meteoro, não mais estrela cadente.
Já sem cor. Ela não é ruiva, loira ou morena.
Tornou-se transparente.
Todavia arde, queima.

Dentro de mim, tudo é assim, como ar.
Mas do perdão ao esquecimento nenhuma ponte pode ser concluída.
Base sólida constitui-se de amor inócuo, puro, pouco egoico,

Três grandezas formam a inequação absoluta.
Segredos.
Um espelho à luz do nada.
O que se acumula no vazio só pode ser ar.
Plasma inútil?!

Fragmentos, vácuo, vão...
O abismo é maior que o tempo infinito.
Costuma ser eterno um curto momento.

O diferente.
Partículas são inteiras; fragmentos são detritos.
De um replica-se; doutro, no máximo emenda-se.
O completo é; o que se partiu, miúdo, sabe-se lá.

Uma ponte de ar sobre o abismo.
É preciso coragem para atravessá-la.
É preciso coragem para cruzar o deserto vão.
Pise-a ao menos, digo.

De repente, certas horas, um clima...
Certos dias, qualquer fenômeno desconstrói o mundo.
Garoa, hoje, está frio.
É sempre frio noturno no deserto iluminado.

_Vamos, menino, levante-se! _ ordena-me um.
_ Pra quê!? _ eu.
_ Trabalho, compromissos _ outros.

Ambos sou eu que nada sou.
E tantos outros, entanto.
Você não conhece Barão de Cocais, conhece!?
Você não me conhece.
Conheceria, um dia.

Amanhã _ ou depois _ nunca mais será a mesma.
Minas está uma angústia só. Logo será.


Sufocada.
Somo pedra-sabão batida, lisa, pisada.
Cosida, cozida…
Do fogo às cinzas desalma.

Nem todo ouro de debaixo da terra vale mais que a paz de uma natureza monótona.
E o que é monotonia?
Nem a folha do coqueiro nem a água da fonte, nem o canto da cigarra, nem a brisa, nem meu coração, nem as pálpebras e cílios se repetem em seus movimentos.
Só lágrimas.

Melancolia, sim, todos conhecem um dia.
Choro é choro.
Dor dói.

A natureza é mãe, não é monotonia.
Sensaboria é ausência de esperança.
Quanto mistério da raiz ao caule circunda?!

A brisa passa por entre os ramos
Uma dança silenciosa
Hastes tombam.

São idênticas. Parecem idênticas.
Da mesma gramínea, têm a mesmas proporções e tonalidade;
Porém, a flexibilidade é peculiar a cada elemento bailarino.
A sincronicidade na desarmonia.,
A penugem, o dente-de-leão...

A brisa sopra para todos _ com a mesma intensidade _ há harmonia.
Dança-se conforme o som, conforme as notas chegam aos ouvidos.
Conforme a natureza dança.

Da inocência à maturidade saltita-se como Saci, feliz.
Café com pão, café com pão: era o barulho do trem.
Hoje é zunzunzum. Nada,

Ninguém.

Maria se foi. Foi-se, María.
Foice.
Maria foice.

Quantas Marias degolam;
Quantas degoladas!
É um trem que passa.

Barão de Cocais...
De certo há orquídeas ainda, beijos...
Nas encostas, na relva, nos moinhos, sempre-vivas brilhando como estrelas.
Pérolas.
E borboletas como anjos aos olhinhos da criança.

Havia mina ali.
Diamantes.
Na mata, havia onça e javali.

Havia, antes da Vale, havia.
Canto de carro e de boiadeiro.
Os beija-flores chegaram primeiro.
Precisamos da Vale?

Tudo passa, dizem.
O trem passa
Maria, a vida,
Tudo fumaça.
O burro, os bois, o cangalho…

O Brasil inteiro tornou-se Vale;
Brasileiros, cascalho.


quinta-feira, 14 de março de 2019

O breve discurso do ministro

Horário de almoço.

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Dias Toffoli, abriu a sessão com breve e velho discurso sobre violências e tragédia, em menção ao ocorrido em Suzano. "Não podemos aceitar que o ódio entre em nossa sociedade." Isso e outras coisas não me saíram da cabeça.

A vaidade profissional, natural de quem ocupa cargo de poder, não deixa servidor de destaque ver que o país mudou, a realidade é outra.
"Violências como essa não fazem parte da nossa cultura." Será mesmo?

Há muito tempo a violência faz parte da cultura do nosso país. A covardia e o desespero vão mudando a cara, deixa de ser um grito silencioso, simples assim. Logo teremos uma violência típica, exclusiva, com a cara do Brasil sitiado e globalizado.

Entre as afirmativas do seu discurso, nas pausas, ensaiadas, de silêncio e marcescível expressão de comoção, o juiz poderia abrir espaço para um relevante e profícuo debate: segurança pública, responsabilidade do poder judiciário e responsabilidade social. Visitas ao palco de tragédias e palavras de condolências e solidariedade não atendem às necessidades de uma nação que clama por atitudes de benefício e respeito.

"A juventude traduz futuro e esperança." Aonde?!

Pergunto a mim, e aos excelentíssimo, senhoras e senhores, onde falhamos, o que e onde omitimos e deixamos de fazer, e o que podemos fazer de imediato para evitar horrores como esse.

A verdade é que, a juventude não tem esperança, não enxerga futuro porque não existe horizontes; além do que se vê abandonada, em descaso, ignorada pelo poder público e pela sociedade. Têm-se apenas um “se vira!”, “acredita!”, “FODA-SE!”.

O almoço fica indigesto. Volto para o trabalho.
As reformas, trabalhista e da previdência, são provas atuais de atos cruéis de desrespeito e desumanidade. Amanhã veremos tragédias iguais dentro de empresas privadas e estatais. Principalmente estatais de economia mista.


Você, excelentíssimo, e eu, e o dono do mercadinho, dormiremos de consciência tranquila? Não. Não se ainda formos humanos.
Pronto falei!

quarta-feira, 13 de março de 2019

Loucura urbana


Desafios.
Alguns eu venço diariamente:
Levantar toda manhã;
Ir para o trabalho sem pensar no sacrifício _ é osso!
Entretanto, trabalhar é bom. Eu gosto.
Ao fim do dia estou exausto, morto.
Pela manhã ressuscito.

O mundo é impuro.
Sou mundano.
Muito do mundo me cura.
Muito há de engano.

Ele é cinza, o mundo.
Quando não, quase sempre, é escuro.
Ai está o bom das ervas.

Pinto, risco, coloro, assopro o giz
A autoestima sobe;
Se não a engole o dia
À noite o mundo a si mesmo colore.

Veja o cárcere, adormecer.
O mosquito, o teto, zonzeira...
O relógio zonzo.
Mais zonzo que as horas,
O tempo.

Suplício é ter em quem pensar estando só.
Sexo, é uma esponja de ilusões umedecida.
Se posso, gozo. Senão…

Vejo a lua entrar pela janela.
Quando não há por abrir rasgo o teto.
Já criei firmamentos que nenhum gênio imaginara.

O mundo é um campo de batalha.
É o destino, é a vida.
Tens um mapa? Uau!
Onde começa e acaba o labirinto?
Fico ébrio.

Leio-o, o mundo, muito.
Muito ler cega.
Disfarço.
Na verdade, sou disléxico.
Às vezes me faço.
Sigo.

Desafios,
Noite e dia.
O círculo tem sombra e luz.
Claro, se há sombras, logo...
“A consciência nasce do contraste”, dizem.

À noite, a mente não enxerga sinal vermelho.
Uma nave em cada via, ou muitas em todas.
Cria-se para si galáxias e órbitas.

O ser humano está em fase de mutação, acelerada.
No que ele está se transformando?
Doenças comportamentais.
O diagnostico é um desafio.
Evolução?

Amanhece.
Se somos imagem e semelhança de Deus, não somos humanos.
Ele disse: “Façamos o homem”, homem e mulher os criou.
Humanos, pode ser que já existissem.

O transporte pública sufoca o trabalhador.
O trabalhador sufoca o trânsito.
O transeunte erra.

Desgastante sacrifício.
O assédio, a humilhação, a resistência
Pouca recompensa.
Aquém resiliência.
Talvez, fôssemos todos políticos o sacrifício fosse menos.

Pensando friamente, crer em um deus, criador do universo, é loucura.
Friamente pensando, não crer é loucura maior.
Tudo do nada, por nada. O homem...
Conscientemente, loucura é em nada crer.
Bem, prefiro crer Deus inspiração.

As pernas lisas, roliças, brancas como curau.
As pernas trementes fazem tremer minha imaginação.
Um enrosco na madrugada, quem o tivera?
A coxa arranhada.
Alguém foi feliz na madrugada.
Madrugada fria.
Contas a pagar… devo um livro pra biblioteca… minha bursite...
O mundo é desigual. Tudo é desigual!
Injusto!?
Conheço o homem.
O que será que a atraiu?
Ele é feio, mal-acabado; pior que exótico.
Exótico seria elogio.
Feliz é o outro.

O pão da minha fome o suor não o produz, fermenta-se na insubstancialidade.

Espero o sol.
Não quero morrer com fome.
Afinal, sou ou não divino?