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domingo, 7 de julho de 2019

O fenômeno ser


Aconteceu-me este fato intrigante:
Eu mal fechara os olhos e lá estava eu, uma gota d'água.
Total silêncio.
Uma gota d'água que se forma continuamente no limbo de uma folha curvada sobre um fio d'água corrente. Esta desliza para a extremidade e se desprende e pinga num lago transparente, cristalino.
Eu podia ouvir o barulho da gota intumescer, se desprender e ir caindo até colidir no espelho d'água. E o som dos seus respingos nas pequenas ondas do lago eram quase inaudíveis. Era como um suspiro que cismo haver entre notas nas sinfonias de Beethoven.
E aquilo era eu: a gota, a vida. É como pensava eu mesmo sobre mim, sentado na pedra me observando.

Deitado, meditando e tentando dormir, senti receio de mover corpo físico e mente e quebrar aquele ritmo. Sou eu, é a vida, pensei. Senti a veia aorta dolorida, latente a jugular. Percebia gota a gota meu sangue fluindo. Em gotas?!

O que sou? Nasci. Deram-me um nome. Tive pressa de falar, andar, correr... E como corri! Acelerei o tempo.

Eis a luz do mundo. Logo queremos ser crescidos, adolescentes, jovens. Logo desejamos acrescentar umas letras a mais antes do nome. Depois, depois. Palavras, títulos, mais nomes.
Aceleramos o tempo e nele se cria vácuos, intervalos quase imperceptíveis no percurso da vida. Às vezes, de vez em quando, por sorte, somos sacudidos por uma colisão, um abalo sísmico.
Aí queremos desacelerar. Mas os pés se fizeram-se de chumbo. Estão pesados demais, presos aos minérios do chão. E você vê que correr não fora boa opção. Mais vale desprender-se e voar. Mas como?

E quer ser novamente um pouquinho mais jovem _ sonhar de regresso. Quer a juventude, a adolescência, a infância, quer correr sem sair do lugar, quer colo, quer abrigo, quer silêncio... Gota d'água.

Aí a gente conclue que quer apenas ser o que fora antes de ter nome. Ser o simples ser perfeito, tão imensamente pequeno universo divino, compacto, simples fruto do amor, chamado simplesmente milagre: presente de Deus.

Entanto, por sorte, é hora de dormir.

sábado, 25 de maio de 2019

Primeiras notas

Sexta-feira.
O solo é Bach: Selon.
Lá fora orquestra-se nas folhas de bananeira.
Notas suaves.
Café, penso.

E lá vem ela, de dentro de mim.
Ascende.

Meteoro, não mais estrela cadente.
Já sem cor. Ela não é ruiva, loira ou morena.
Tornou-se transparente.
Todavia arde, queima.

Dentro de mim, tudo é assim, como ar.
Mas do perdão ao esquecimento nenhuma ponte pode ser concluída.
Base sólida constitui-se de amor inócuo, puro, pouco egoico,

Três grandezas formam a inequação absoluta.
Segredos.
Um espelho à luz do nada.
O que se acumula no vazio só pode ser ar.
Plasma inútil?!

Fragmentos, vácuo, vão...
O abismo é maior que o tempo infinito.
Costuma ser eterno um curto momento.

O diferente.
Partículas são inteiras; fragmentos são detritos.
De um replica-se; doutro, no máximo emenda-se.
O completo é; o que se partiu, miúdo, sabe-se lá.

Uma ponte de ar sobre o abismo.
É preciso coragem para atravessá-la.
É preciso coragem para cruzar o deserto vão.
Pise-a ao menos, digo.

De repente, certas horas, um clima...
Certos dias, qualquer fenômeno desconstrói o mundo.
Garoa, hoje, está frio.
É sempre frio noturno no deserto iluminado.

_Vamos, menino, levante-se! _ ordena-me um.
_ Pra quê!? _ eu.
_ Trabalho, compromissos _ outros.

Ambos sou eu que nada sou.
E tantos outros, entanto.
Você não conhece Barão de Cocais, conhece!?
Você não me conhece.
Conheceria, um dia.

Amanhã _ ou depois _ nunca mais será a mesma.
Minas está uma angústia só. Logo será.


Sufocada.
Somo pedra-sabão batida, lisa, pisada.
Cosida, cozida…
Do fogo às cinzas desalma.

Nem todo ouro de debaixo da terra vale mais que a paz de uma natureza monótona.
E o que é monotonia?
Nem a folha do coqueiro nem a água da fonte, nem o canto da cigarra, nem a brisa, nem meu coração, nem as pálpebras e cílios se repetem em seus movimentos.
Só lágrimas.

Melancolia, sim, todos conhecem um dia.
Choro é choro.
Dor dói.

A natureza é mãe, não é monotonia.
Sensaboria é ausência de esperança.
Quanto mistério da raiz ao caule circunda?!

A brisa passa por entre os ramos
Uma dança silenciosa
Hastes tombam.

São idênticas. Parecem idênticas.
Da mesma gramínea, têm a mesmas proporções e tonalidade;
Porém, a flexibilidade é peculiar a cada elemento bailarino.
A sincronicidade na desarmonia.,
A penugem, o dente-de-leão...

A brisa sopra para todos _ com a mesma intensidade _ há harmonia.
Dança-se conforme o som, conforme as notas chegam aos ouvidos.
Conforme a natureza dança.

Da inocência à maturidade saltita-se como Saci, feliz.
Café com pão, café com pão: era o barulho do trem.
Hoje é zunzunzum. Nada,

Ninguém.

Maria se foi. Foi-se, María.
Foice.
Maria foice.

Quantas Marias degolam;
Quantas degoladas!
É um trem que passa.

Barão de Cocais...
De certo há orquídeas ainda, beijos...
Nas encostas, na relva, nos moinhos, sempre-vivas brilhando como estrelas.
Pérolas.
E borboletas como anjos aos olhinhos da criança.

Havia mina ali.
Diamantes.
Na mata, havia onça e javali.

Havia, antes da Vale, havia.
Canto de carro e de boiadeiro.
Os beija-flores chegaram primeiro.
Precisamos da Vale?

Tudo passa, dizem.
O trem passa
Maria, a vida,
Tudo fumaça.
O burro, os bois, o cangalho…

O Brasil inteiro tornou-se Vale;
Brasileiros, cascalho.


quinta-feira, 14 de março de 2019

O breve discurso do ministro

Horário de almoço.

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Dias Toffoli, abriu a sessão com breve e velho discurso sobre violências e tragédia, em menção ao ocorrido em Suzano. "Não podemos aceitar que o ódio entre em nossa sociedade." Isso e outras coisas não me saíram da cabeça.

A vaidade profissional, natural de quem ocupa cargo de poder, não deixa servidor de destaque ver que o país mudou, a realidade é outra.
"Violências como essa não fazem parte da nossa cultura." Será mesmo?

Há muito tempo a violência faz parte da cultura do nosso país. A covardia e o desespero vão mudando a cara, deixa de ser um grito silencioso, simples assim. Logo teremos uma violência típica, exclusiva, com a cara do Brasil sitiado e globalizado.

Entre as afirmativas do seu discurso, nas pausas, ensaiadas, de silêncio e marcescível expressão de comoção, o juiz poderia abrir espaço para um relevante e profícuo debate: segurança pública, responsabilidade do poder judiciário e responsabilidade social. Visitas ao palco de tragédias e palavras de condolências e solidariedade não atendem às necessidades de uma nação que clama por atitudes de benefício e respeito.

"A juventude traduz futuro e esperança." Aonde?!

Pergunto a mim, e aos excelentíssimo, senhoras e senhores, onde falhamos, o que e onde omitimos e deixamos de fazer, e o que podemos fazer de imediato para evitar horrores como esse.

A verdade é que, a juventude não tem esperança, não enxerga futuro porque não existe horizontes; além do que se vê abandonada, em descaso, ignorada pelo poder público e pela sociedade. Têm-se apenas um “se vira!”, “acredita!”, “FODA-SE!”.

O almoço fica indigesto. Volto para o trabalho.
As reformas, trabalhista e da previdência, são provas atuais de atos cruéis de desrespeito e desumanidade. Amanhã veremos tragédias iguais dentro de empresas privadas e estatais. Principalmente estatais de economia mista.


Você, excelentíssimo, e eu, e o dono do mercadinho, dormiremos de consciência tranquila? Não. Não se ainda formos humanos.
Pronto falei!